Autoridades da saúde e do governo americano estão em estado de alerta e afirmam que nenhum país estará seguro enquanto a disseminação do coronavírus continuar a crescer, pelo risco de surgirem novas variantes, mais transmissíveis e também agressivas
Nos EUA, a população já discute quando a vida poderá voltar ao normal, diante da aceleração do ritmo de vacinação e da indicação de que até o fim de maio o país terá doses de imunizante para todos. Depois de um ano como epicentro da pandemia, os EUA agora veem uma luz no fim do túnel e a ameaça do lado de fora. Mais especificamente no Brasil.
"Há uma sensação de alarme sobre a natureza não controlada da pandemia no Brasil e o ritmo lento da vacinação - especialmente agora que o Brasil é a fonte de uma nova e preocupante variante da covid-19", afirma Anya Prusia, do Brazil Institute do Centro de Estudos Wilson Center, em Washington. "A atenção aqui está voltada para a disseminação dessa cepa mais contagiosa, a P.1, que se originou em Manaus."
Os primeiros dois casos da variante P.1 foram registrados nos EUA em janeiro, horas depois de o presidente Joe Biden revogar uma decisão de Donald Trump e recolocar a restrição de viagens do Brasil aos EUA.
Duas pessoas que estiveram no Brasil foram diagnosticadas com a nova cepa em Minnesota. Até agora, os EUA registraram 13 casos da mutação, em ao menos sete Estados. Mas ainda não há transmissão comunitária, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Mas não foi a chegada nos EUA da cepa de Manaus que alarmou os americanos e sim a recente situação da pandemia no Brasil, que tem batido recorde de mortes. "Enquanto a pandemia continuar a crescer, ninguém estará a salvo", disse o porta-voz do Departamento de Estado americano, Ned Price, em coletiva de imprensa.
Em pronunciamentos e entrevistas recentes, o principal infectologista do governo americano, Anthony Fauci, tem ressaltado que a cepa P.1 está associada a uma maior transmissibilidade e à preocupação de que a mutação possa interromper a imunidade induzida naturalmente e pela vacina.
Há cerca de um mês, Fauci afirmou que isso preocupa os americanos, que não devem derrubar tão cedo o bloqueio de passageiros que estiveram no Brasil. Nesta semana, ele voltou ao tema. "O Brasil está numa situação muito difícil. A melhor coisa é vacinar o maior número de pessoas o mais rápido possível", disse Fauci, que chegou a dizer que os EUA poderiam ajudar os brasileiros.
O ritmo de vacinação nacional, porém, não anima. O Washington Post descreveu a vacinação brasileira como um processo de "escassez e atrasos", enquanto o The New York Times reporta uma vacinação lenta e sem sinalização de melhora.
"O país atingiu o pior momento. Surgiram variantes que parecem mais mortais para pessoas saudáveis, e os cientistas documentaram coinfecção por múltiplas variantes", escreveu Kevin Ivers, vice-presidente da consultoria americana DCI Group, em relatório. "A preocupação é que a disseminação acelere essas coinfecções no Brasil e leve a uma explosão de novas variantes mais agressivas."
A situação brasileira foi definida pelo Washington Post, no dia 4, como "terreno fértil" para outras variantes. O risco foi mencionado também por cientistas, como Bill Hanage, epidemiologista da Faculdade de Saúde Pública da Universidade Harvard (leia entrevista abaixo).
Nas redes sociais, o também epidemiologista e economista da área da saúde Eric Feigl-Ding, membro da Federação de Cientistas Americanos, postou que o Brasil precisa da ajuda de líderes estrangeiros. "A epidemia descontrolada do Brasil será uma ameaça ao mundo, mas ainda não é muito tarde", disse ao Estadão. "Mas é preciso ter sequenciamento genético, controle de fronteiras, quarentenas e testagem em massa."
Para a epidemiologista brasileira Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine Institute, com base em Washington, se o Brasil não for capaz de controlar a situação, os bloqueios de viajantes devem se intensificar.
O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, pesquisador da Universidade Duke, que nos últimos dias ganhou espaço em jornais estrangeiros pedindo uma pressão de outras nações sobre o Brasil, chama a atenção para a "geopolítica da pandemia". "É a diplomacia do século 21. Já tem países trocando mercadorias por vacinas", afirmou. "Se o fluxo ficar desimpedido, a doença desse país vai migrar para os outros."
Falta de liderança
Na imprensa e entre analistas americanos, Jair Bolsonaro é o presidente que propaga desinformação, é cético sobre a vacina e está em choque com governadores. "Como aconteceu com Trump, o vácuo de liderança de Bolsonaro deu ao vírus abertura para se espalhar", disse o Washington Post. Um dia antes, o The New York Times colocou a preocupação com o Brasil em sua capa.
A crise no País já chamou a atenção no ano passado, com as imagens de cemitérios lotados em Manaus e São Paulo. Desta vez, a preocupação é diferente, porque o que acontece no Brasil, segundo os americanos, pode colocar em xeque os avanços do resto do mundo.
Para os EUA, pandemia no Brasil ameaça o mundo todo
Secretário de Saúde de MG fura fila da vacina e leva outros 500
Questionado, secretário Carlos Amaral alegou que fura a fila
da vacina “para dar exemplo”. Mas funcionários eram proibidos de filmar ou
fotografar o momento
Por Redação RBA
Publicado 11/03/2021 - 16h16
Agência Minas
Caso é chamado de "escândalo nacional" e se torna
alvo de ação do MP. Governador Romeu Zema abre investigação, mas mantém
secretário no cargo
São Paulo – Aproximadamente 500 servidores administrativos
da Secretaria da Saúde de Minas Gerais podem ter sido vacinados contra a
covid-19 pelo governo Romeu Zema (Novo), mesmo estando fora do grupo
prioritário. A suspeita é de que a pasta organizou um “fura-fila” da vacina,
segundo o Ministério Público do estado.
A lista de imunizados inclui o próprio secretário de Saúde,
Carlos Eduardo Amaral. Além dele, assessores de imprensa, funcionários de
almoxarifados e da área administrativa também teriam recebido as doses mesmo
não estando dentro dos critérios do Plano Nacional de Imunização e atuando em
home office.
O caso é investigado pela Assembleia Legislativa, que ontem
(10) exigiu do secretário a entrega imediata dos nomes dos servidores. Em
audiência pública, que durou quase seis horas, Amaral admitiu que já foi
imunizado. Mas alegou que “quis tomar a vacina para dar o exemplo” à população.
“Não concordo com nenhum movimento contrário à vacinação”, declarou.
Aos deputados, o secretário também justificou que a
imunização dos servidores, sem respeitar a fila da vacina no estado, foi no
“sentido de preservar os serviços de saúde e os órgãos estruturantes
funcionando”. “Por isso servidores de secretarias estaduais e municipais são
vacinados. Quem viabiliza um respirador chegar a determinado local e quantas
vacinas serão destinadas são esses trabalhadores”, mencionou. Amaral, no
entanto, disse que teria que consultar o jurídico da pasta sobre a
possibilidade de repassar o nome dos funcionários vacinados.
Vacinação às escondidas
Os argumentos chamaram atenção de deputados estaduais, que
questionaram o sigilo e a justificativa de “exemplo”, já que não houve um ato
público de vacinação ou registro e divulgação em campanha. Ao contrário,
reportagem da rádio Bandeirantes de Belo Horizonte indica que havia uma
orientação interna, por parte da secretaria, para que os servidores não
contassem sobre a vacinação. Eles também foram proibidos de filmar ou
fotografar o momento em que recebiam as doses sem respeitar a fila da vacina.
A matéria destaca que pelo menos 17 assessores de
comunicação foram vacinados contra a covid. E os servidores de cargos de
confiança foram os primeiros convocados. Os coordenadores da secretaria
estariam ainda “pressionando os funcionários para aderirem ao esquema de
vacinação fora da política de prioridades”. À eles era apresentado um memorando
interno que dizia ser legal a imunização. Mesmo assim, ressalta o veículo,
muitos se recusaram a tomar a dose.
Parlamentares qualificaram as denúncias como um “escândalo
nacional”. De acordo com o deputado estadual Ulysses Gomes (PT), o “exemplo
poderia ter sido dado de outras formas, mantendo a prioridade na fila de
vacinação”. Eles acusaram o secretário de Saúde de não deixar claro os
critérios de priorização e cobraram por mais doses dos imunizantes.
O presidente da Assembleia, Agostinho Patrus (PV), anunciou
que Amaral pode ser convocado a depor em uma comissão parlamentar de inquérito
e responder por improbidade administrativa. O pedido de CPI já conta com pelo
menos 30 assinaturas.
Furar fila
“Furar a fila da vacina sem nenhum argumento razoável,
enquanto avós não veem seus netos há mais de um ano e pessoas morrem em
hospitais, é motivo suficiente para aAssembleia abrir uma CPI e investigar a
fundo o absurdo ‘trem da alegria’ da imunização”, frisou Patrus em suas redes
sociais.
A 19ª Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde de Belo
Horizonte também deu um prazo de cinco dias para que a Secretaria de Saúde
informe os cargos das pessoas vacinadas, as datas de imunização,
correlacionando-as aos grupos prioritários definidos no plano do Ministério da
Saúde. A denúncia de “fura-fila” repercutiu negativamente sobre o governo Zema,
que na noite de quarta anunciou a abertura de um inquérito, mas manteve Amaral
no cargo.
A pandemia em Minas
Até o momento, o governo estadual divulga que 765.338
mineiros receberam a primeira dose, o equivalente a 61,04% do grupo
prioritário. A segunda dose já foi aplicada em 358.350 pessoas, menos de 30%
das prioridades. Pouco mais de 2 milhões de doses foram enviadas ao estado, que
tem 20,8 milhões de habitantes.
Em paralelo, a imprensa local repercute que Minas, como todo
o país, vive o pior momento da pandemia. No entanto, o governo Zema é o único
em todo o Brasil que não faz distinção entre os leitos de UTI destinados a
pacientes com covid-19. Nesta quarta, pela primeira vez, a secretaria de Saúde
tornou pública a taxa de ocupação, que está em 78,3%.
(*) Com informações da CartaCapital, Imprensa ALMG e do
Jornal Estado de Minas


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