domingo, 10 de maio de 2026

Mar de lama que pode engolir Ciro Nogueira assusta Flávio Bolsonaro

Enquanto isso, Lula celebra o sucesso do seu encontro com Trump

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KEBEC NOGUEIRA/METRÓPOLES @kebecfotografo
O senador Ciro Nogueira foi visto na porta de seu quarto no início da noite desta quinta-feira, após ser alvo de operação de busca e apreensão da Polícia Federal metropoles
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A essa altura, quem ainda fala sobre a recusa, pelo Senado, da indicação de Jorge Messias para ministro do Supremo Tribunal Federal, comemorada pela oposição ao governo? Parece ter passado tanto tempo desde então, mas aconteceu há apenas dez dias.

Extraordinária é a capacidade de criação do roteirista do filme Brasil. Analistas que detestam o governo disseram que o Lula 3 acabara, estava morto. Só faltava removê-lo de cena para dar lugar, em outubro, ao governo de Flávio Bolsonaro.

Contrafeitos, esses mesmos analistas já começaram a dizer que Lula é um homem de sorte, dado que seu encontro com Donald Trump na Casa Branca terminou bem. Ao chamá-lo de “homem de sorte”, o que pretendem é desvalorizar seus passos certos.

 encontro era para ter durado meia hora, ou um pouco mais. Estendeu-se por quase três horas. Perguntado sobre como transcorreu, Lula respondeu: “Olhem para minha cara. Pareço feliz ou não?” — e abriu um largo sorriso.

Tanto mais feliz porque, como homem de sorte, ele estava fora de Brasília no dia em que o bolsonarismo amargou um duro golpe: a operação da Polícia Federal contra o senador Ciro Nogueira, presidente do PP, cotado para vice na chapa de Flávio.

Quem o disse? O próprio Flávio, em 14 de junho do ano passado, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo:

— Em relação à vice, quem eu acho que tem todas as credenciais para ser é o Ciro. Mas essa é uma decisão que se toma muito mais na frente. O perfil do Ciro é um bom perfil. É nordestino, é de um partido bem forte, tem ali a lealdade que ele sempre teve ao presidente Bolsonaro durante o ministério dele. Então, sem dúvida alguma, é o nome que está colocado.

Ontem, em nota oficial, Flávio “largou a mão” de Ciro para não se queimar:

— O senador Flávio Bolsonaro acompanha com atenção e considera graves as informações divulgadas pela imprensa. Entendemos que fatos dessa natureza devem ser apurados com rigor e transparência pelas autoridades competentes, sempre com respeito ao devido processo legal. […] Esperamos por uma ampla apuração.

Marcado para a próxima segunda-feira (11), o ato que formalizaria o apoio público do PP de Ciro à reeleição de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, deverá ser adiado. Os que antes o festejavam agora querem distância dele. Não sem razão.

A Polícia Federal considera que os benefícios recebidos por Ciro de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, extrapolavam as relações de amizade entre os dois. A saber:

Mesadas recorrentes: pagamentos mensais que variavam entre R$ 300 mil e R$ 500 mil.
Viagens e hospedagens: custeio de voos privados e estadias em hotéis de luxo, como o Park Hyatt, em Nova York.
Cartão de crédito: disponibilização de cartões de Vorcaro para cobrir gastos pessoais e restaurantes de alto padrão.
Uso de imóvel: desfrute gratuito de um imóvel de luxo pertencente ao banqueiro, utilizado “como se fosse do próprio parlamentar”.
Negócios societários: Ciro, seu irmão, suas filhas e sua ex-mulher teriam adquirido uma participação de 30% em uma empresa de Vorcaro (avaliada em R$ 13 milhões) por apenas R$ 1 milhão.
E tudo em troca do quê?

A principal contrapartida política identificada foi a apresentação, por Ciro, da Emenda nº 11 à Proposta de Emenda à Constituição 65/2023. Ela propunha elevar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. A Polícia Federal afirma que o texto foi redigido pela assessoria do Banco Master e entregue em um envelope na casa de Ciro. A medida beneficiaria bancos médios como o Master, permitindo que Vorcaro expandisse operações com garantias do FGC.

Lá dos Estados Unidos, para Ciro e os demais investigados, Lula mandou o recado: “Espero que todos sejam inocentes”. Com isso, ele mostra que está mais vivo do que nunca, firme no jogo e, claro, com a sorte ao seu lado. Que continue assim.

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Moraes rejeita dez pedidos de redução de pena com base na Lei da Dosimetria

 Ministro do STF rejeitou dez solicitações apresentadas por réus condenados pelos atos golpistas e citou necessidade de segurança jurídica

SP
Sílvia Pires
Repórter
Jornalista formada pela Puc Minas, é repórter de Cidades no jornal Estado de Minas.
09/05/2026

Alexandre de Moraes rejeitou pedidos de redução de pena de condenados do 8 de Janeiro após suspender os efeitos da Lei da Dosimetriacrédito: Sophia Santos/STF

O ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes rejeitou dez pedidos apresentados por condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 que buscavam redução de pena com base na recém-promulgada Lei da Dosimetria. As decisões foram tomadas após o magistrado suspender neste sábado (9/5) os efeitos da nova legislação, promulgada no dia anterior.

Relator das ações que questionam a constitucionalidade da Lei 15.402/2026, Moraes entendeu que não há segurança jurídica para aplicação imediata das novas regras enquanto o Supremo analisa a validade da norma.

“Consequentemente, a pendência de julgamento em controle concentrado de constitucionalidade configura fato processual novo e relevante, que poderá influenciar no julgamento dos pedidos realizados pela defesa, recomendando a suspensão da aplicação da lei, por segurança jurídica”, escreveu no despacho.

A decisão do ministro trava, por ora, a tentativa de condenados pelos atos antidemocráticos de usar a nova legislação para revisar penas já fixadas pelo STF.

Aprovada no ano passado, a Lei da Dosimetria altera dispositivos do Código Penal e da Lei de Execução Penal relacionados aos crimes contra o Estado Democrático de Direito. Entre as principais mudanças está a criação de regras específicas para aplicação das penas dos crimes de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito, impedindo a soma de penas que hoje é aplicada pelo Supremo.

O texto foi promulgado pelo Congresso após a derrubada de vetos do presidente Lula e passou a ser defendido por parlamentares bolsonaristas como uma forma de “corrigir excessos” nas condenações relacionadas ao 8 de Janeiro.

Críticos da proposta, porém, afirmam que a lei foi desenhada sob medida para reduzir punições aplicadas aos envolvidos nos ataques às instituições democráticas.

Questionamentos à constitucionalidade

As ações que questionam a constitucionalidade da Lei da Dosimetria foram apresentadas pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e pela federação PSOL-Rede. As entidades sustentam que a legislação enfraquece a proteção ao Estado Democrático de Direito e foi elaborada para beneficiar diretamente envolvidos na tentativa de golpe.

Segundo os autores das ações, a lei cria mecanismos de flexibilização penal voltados especificamente para condenados pelos atos golpistas e pela trama que culminou nos ataques às sedes dos Três Poderes em Brasília.

    Além da suspensão da norma, Moraes deu prazo de cinco dias para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre, prestem esclarecimentos ao STF sobre a tramitação e os fundamentos da lei.

    Na sequência, a Advocacia-Geral da União (AGU) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) deverão se manifestar antes da análise definitiva da Corte.

    Pedidos de revisão da pena

    Os pedidos rejeitados por Moraes fazem parte da primeira onda de tentativas de aplicação imediata da nova legislação. Advogados de condenados argumentam que a norma deve retroagir para beneficiar os réus, princípio previsto no direito penal brasileiro quando há mudança legal mais favorável ao condenado.

    O tema já vinha sendo discutido antes mesmo da promulgação oficial da lei. Na segunda-feira (4/5), antes da entrada em vigor da legislação, Moraes já havia negado um pedido semelhante apresentado pela defesa da cabeleireira Débora Rodrigues dos Santos, conhecida como “Débora do Batom”.

    Os advogados pediam a redução da pena da cliente com base na aprovação do Projeto de Lei da Dosimetria, mesmo antes da promulgação definitiva do texto.

    Na ocasião, Moraes destacou que a legislação ainda não estava em vigor e, por isso, considerou o pedido “prejudicado”. O ministro também encaminhou o caso para manifestação da Procuradoria-Geral da República.

    Débora Rodrigues foi condenada pelo STF a 14 anos de prisão, em regime inicial fechado, pelos crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado, deterioração de patrimônio tombado e associação criminosa armada.

    Segundo a Polícia Federal, ela escreveu, com batom, a frase “perdeu mané” na Estátua da Justiça, localizada em frente ao prédio do Supremo Tribunal Federal, durante os ataques de 8 de janeiro de 2023.

    A defesa sustenta que, com a aprovação da nova legislação, a pena deveria ser revista para baixo, justamente porque leis penais mais benéficas podem retroagir em favor do condenado.

    Operação contra trabalho escravo resgata mais de 40 pessoas em igreja ligada à pastor preso por abuso contra fiéis no MA

     Operação foi deflagrada nesta quinta-feira (7), na sede da igreja Shekinah House Church, em Paço do Lumiar. A igreja tinha como pastor David Gonçalves Silva, preso por suspeita de abusos sexuais e punições físicas contra fiéis.

    Por g1 MA — São Luís

    Forças de segurança fazem nova operação na Shekinah House Church

    Forças de segurança fazem nova operação na Shekinah House Church


    Auditores-Fiscais do Trabalho, vinculados à Secretaria de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho (SIT/MTE), realizaram, nesta quinta-feira (7), uma operação que resgatou mais de 40 trabalhadores em situação análoga à escravidão na sede da igreja Shekinah House Church, em Paço do Lumiar, na Região Metropolitana de São Luís. A igreja tinha como pastor David Gonçalves Silvapreso por suspeita de abusos sexuais e punições físicas contra fiéis.

    Segundo o MPT, os trabalhadores foram encontrados em condições degradantes. A Vigilância Sanitária interditou o espaço e os resgatados serão encaminhados para um local de acolhimento montado pela Secretaria de Estado de Direitos Humanos.

    Ainda de acordo com o MPT, parte dos trabalhadores permanecerá no local para cuidar dos animais do haras que funcionava na propriedade.

    Devido à complexidade da operação, a ação também conta com apoio da Polícia Federal, Polícia Militar, Ministério Público do Estado, Defensoria Pública, assistentes sociais e do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

    Operação contra trabalho escravo resgata mais de 40 em igreja ligada à pastor preso por abuso contra fiéis no MA — Foto: Reprodução/TV Mirante

    Operação contra trabalho escravo resgata mais de 40 em igreja ligada à pastor preso por abuso contra fiéis no MA — Foto: Reprodução/TV Mirante

    Sede já havia sido alvo de operação

    Na ocasião, segundo o Ministério Público, as buscas realizadas no local não identificaram elementos que configurassem esse tipo de crime.

    Nos últimos dias, mais de 10 pessoas procuraram a polícia para denunciá‑lo. O pastor é investigado por estelionato, estupro de vulnerável, posse sexual mediante fraude e associação criminosa.

    De acordo com a PF, a igreja estaria funcionando paralelamente como espaço de prestação de serviços terapêuticos, sem regularização legal, licenciamento administrativo ou comprovação de habilitação técnica dos responsáveis, além de indícios de irregularidades quanto às condições de permanência, segurança e atendimento das pessoas ali residentes.

    Ainda segundo o MPT, foram recolhidos depoimentos e documentos que serão analisados e anexados ao processo. Entretanto, caso haja no curso da investigação alguma situação que se enquadre a trabalho análogo à escravidão, intervenções devem ser feitas posteriormente.

    Na sexta‑feira (24), um novo vídeo incorporado ao inquérito policial mostra um adolescente em estado de exaustão após ser submetido a punições (veja acima). Segundo a polícia, ele passou horas em pé, sem dormir, e foi obrigado a escrever durante toda a noite a frase: “Eu preciso aprender a respeitar meu líder”.

    O pastor foi preso no dia 17 de abril. Natural do Ceará, ele é suspeito de aplicar castigos físicos e punições psicológicas a jovens que descumpriam regras impostas por ele. Entre as vítimas, há pessoas do Pará e do Ceará.

    Pastor do MA é preso; entre castigos aplicados, em um deles os fiéis eram obrigados a escrever que respeitariam 'o meu líder' — Foto: Arte/g1

    Pastor do MA é preso; entre castigos aplicados, em um deles os fiéis eram obrigados a escrever que respeitariam 'o meu líder' — Foto: Arte/g1

    Vítimas relatam que procuraram a igreja em busca de apoio

    Operação 'Falso Profeta' — Foto: Divulgação/Polícia Civil do Maranhão

    Operação 'Falso Profeta' — Foto: Divulgação/Polícia Civil do Maranhão

    De acordo com a polícia, o sistema de punições ajudou o pastor a manter controle sobre cerca de 100 a 150 fiéis por anos.

    Entre as vítimas estão pessoas em situação de extrema vulnerabilidade, que relatam ter procurado a igreja em busca de ajuda, como um jovem que chegou ao local aos 13 anos, quando vivia em situação de rua.

    As agressões eram frequentes e tinham nomes específicos. Um dos castigos aplicados era chamado de “readas”, que consistia em chicotadas com um reio, um tipo de chicote geralmente usado em cavalos. Em um dos casos relatados à polícia, quatro vítimas sofreram entre 15 e 25 chicotadas cada.

    g1 teve acesso a um dos áudios atribuídos ao pastor que indicam também a privação de comida como forma de punição. Em uma das gravações, ele afirma: “Até resolver a situação da bomba, estão sem comer”.

    Ainda de acordo com a denúncia, o pastor se referia aos fiéis como “piões”. O local onde eles dormiam era chamado de “baia”. A investigação aponta que as agressões físicas e psicológicas também eram usadas como forma de pressão para a prática de abusos sexuais.

    Homens eram os principais alvos dos abusos sexuais, diz polícia

    Os investigadores da Polícia Civil afirmam que, embora a comunidade fosse formada por homens e mulheres, os homens eram os principais alvos dos abusos sexuais.

    “Ele dizia que, por fora, podia ser homem, mas que, em quatro paredes, tinha que ser mulher para poder nos ludibriar. Isso aconteceu por vários anos e hoje sou um cara que vive atormentado, com muitas lembranças. Tenho vergonha, mas tô lutando todos os dias para mudar esse centro na minha mente", relatou uma das vítimas.

    A polícia apreendeu folhas de papel com a frase “Eu preciso aprender a respeitar o meu líder” escrita mais de 100 vezes — Foto: Reprodução

    A polícia apreendeu folhas de papel com a frase “Eu preciso aprender a respeitar o meu líder” escrita mais de 100 vezes — Foto: Reprodução

    Durante o cumprimento do mandado no local, a polícia apreendeu folhas de papel com a frase “Eu preciso aprender a respeitar o meu líder” escrita mais de 100 vezes (veja acima). Segundo os investigadores, esse era um dos castigos impostos aos fiéis.

    De acordo com a polícia, os fiéis viviam sob controle constante dentro da igreja e não tinham contato com o público externo. O comportamento era rigidamente determinado pelo pastor, com separação entre homens e mulheres e monitoramento contínuo por câmeras, inclusive durante o banho.

    "Já apanhei, já fiquei sem refeição, já fiquei trancada no quarto sem poder falar com ninguém. Ele também pedia para as pessoas lá do local me tratarem como louca”, afirmou uma das vítimas do líder religioso.

    Operação contra trabalho escravo resgata mais de 40 pessoas em igreja ligada à pastor preso por abuso contra fiéis no MA | G1