domingo, 31 de maio de 2026

Justiça concede liberdade provisória a jovem preso após morte de bebê atingido por linha de cerol na Grande BH

 Decisão indicou que, neste momento da investigação, não há elementos que indiquem que o jovem tenha agido com dolo eventual, quando a pessoa assume o risco de matar.

Por g1 Minas — Belo Horizonte

Bebê morre ao ser atingido no pescoço por linha com cerol — Foto: Arquivo pessoal

Bebê morre ao ser atingido no pescoço por linha com cerol — Foto: Arquivo pessoal

A Justiça concedeu liberdade provisória sem pagamento de fiança, nesta sexta-feira (29), ao jovem de 19 anos preso depois da morte de um bebê atingido por linha de cerol em Contagem, Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Ravi Oliveira Dias, de um ano e nove meses, brincava em um velotrol na Rua Treze, no bairro Arvoredo II, quando foi atingido pela linha cortante, que estava enroscada em uma motocicleta.

Segundo o juíz Elexander Camargos Diniz, neste momento da investigação não há elementos que indiquem que o jovem tenha agido com dolo eventual, quando a pessoa assume o risco de matar. Além disso, a decisão destacou que o jovem é réu é primário, tem bons antecedentes e não há indícios de que represente risco à ordem pública, à investigação ou à aplicação da lei penal.

O juiz também considerou que o investigado afirmou desconhecer que a linha utilizada era linha chilena e que, ao perceber o perigo, tentou alertar o motociclista e participou do socorro à criança. Esses elementos foram apontados como incompatíveis, neste momento, com a tese de que ele teria assumido o risco de provocar a morte da vítima.

O magistrado também dispensou o pagamento da fiança de R$ 3 mil fixada pela Polícia Civil, após considerar a alegação de falta de recursos financeiros apresentada pela defesa.

Apesar da soltura, o jovem deverá cumprir medidas cautelares, entre elas:

Como o garimpo ilegal ameaça o Rio das Velhas e coloca em risco o abastecimento de água em Minas

 Flagrantes feitos pela TV Globo entre Raposos e Rio Acima mostraram dragas em operação no leito do rio. Produção motivou operação que destruiu equipamentos e levou à prisão de um suspeito nesta sexta-feira (29).

Por Larissa Carvalho, Luis Gurgel, Leonardo Lages, Saulo Vieira, TV Globo — Belo Horizonte

Rio das Velhas sofre com a extração ilegal de ouro

Rio das Velhas sofre com a extração ilegal de ouro


A operação que destruiu dragas e resultou na prisão de um suspeito de garimpo ilegal no Rio das Velhas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, nesta sexta-feira (29), teve origem pela produção da TV Globo que identificou pontos de exploração clandestina ao longo do rio.

Durante vários dias, a equipe percorreu trechos entre Raposos e Rio Acima e registrou equipamentos em funcionamento, áreas degradadas e estruturas usadas na retirada irregular de ouro.

    Os flagrantes revelam uma ameaça que preocupa ambientalistas, pesquisadores e órgãos de fiscalização: a degradação de um dos principais rios de Minas Gerais e os riscos à qualidade da água que abastece cerca de 3 milhões de pessoas na Grande BH. Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que a atividade provoca:

    • Assoreamento
    • Destruição da fauna aquática
    • Contaminação por substâncias tóxicas
    • Remobilização de metais pesados acumulados no leito do rio ao longo de séculos de exploração mineral

    Garimpo ilegal em diferentes trechos do Rio das Velhas

    A equipe da TV Globo percorrreu às margens do Rio das Velhas e, em Raposos, flagrou um homem operando uma draga dentro do rio. O equipamento é utilizado para revolver sedimentos do fundo em busca de pequenas quantidades de ouro.

    Suspeito flagrado cometendo extração irregular em Raposos, na Região Metropolitana de BH — Foto: Reprodução/ TV Globo

    Suspeito flagrado cometendo extração irregular em Raposos, na Região Metropolitana de BH — Foto: Reprodução/ TV Globo

    Já em Rio Acima, imagens feitas por drone localizaram rapidamente dois pontos de exploração. Em um deles, havia uma estrutura montada para a atividade, com draga e retroescavadeira. Em outro trecho, trabalhadores deixaram o local ao perceber que estavam sendo filmados.

    Imagens de drone mostram suspeitos e máquinas em garimpo ilegal na cidade de Rio Acima (MG) — Foto: Reprodução/TV Globo

    Imagens de drone mostram suspeitos e máquinas em garimpo ilegal na cidade de Rio Acima (MG) — Foto: Reprodução/TV Globo

    Para Marcus Polignano, coordenador do Projeto Manuelzão, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o lucro obtido pelos garimpeiros não compensa os danos ambientais provocados pela atividade.

    "O que existe hoje é muito pouco ouro. Para conseguir uma quantidade mínima, é preciso revolver uma enorme quantidade de sedimentos. É muita destruição, devastação e contaminação por causa de um benefício muito pequeno", afirma.

    Garimpo revolve sedimentos e libera contaminantes acumulados há séculos

    A relação entre o Rio das Velhas e a exploração do ouro iniciou no período colonial. Registros históricos indicam que uma das primeiras descobertas do metal precioso em Minas Gerais ocorreu nas águas do rio, em 1677, entre Sabará e Lagoa Santa.

    Segundo Polignano, os séculos de mineração deixaram marcas que permanecem até hoje.

    "Os bandeirantes vieram pelo Rio das Velhas e descobriram aqui o ouro que deu origem à ocupação de cidades como Sabará, Ouro Preto e Nova Lima. Esse processo deixou marcas profundas. Ainda existem mercúrio, cianeto e sedimentos contaminados depositados no leito do rio", explica.

    O problema é que, sempre que uma draga revolve o fundo do rio, parte desses materiais pode voltar a circular na água.

    Atividade aumenta turbidez da água e ameaça a vida aquática

    A ambientalista Maria Teresa Corujo, integrante do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas, afirma que o garimpo ilegal gera uma série de impactos simultâneos.

    "Eles mexem no leito para procurar ouro e isso aumenta a turbidez da água. A qualidade da água se deteriora, a biota aquática é destruída e metais pesados podem ser remobilizados. Além disso, no beneficiamento do minério são utilizados produtos químicos que acabam retornando ao rio", alerta.

    Contaminação pode atingir captação que abastece cerca de 3 milhões de pessoas

    Uma das maiores preocupações dos especialistas é o impacto da atividade sobre a captação de água realizada pela Copasa em Honório Bicalho, distrito de Nova Lima.

    É desse sistema que sai parte da água consumida por cerca de 3 milhões de pessoas na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

    "Qualquer aumento de turbidez, produto tóxico ou metal pesado revolvido pode chegar à captação. Existem contaminantes que não são facilmente removidos pelos sistemas convencionais de tratamento. É uma atividade feita sem licença, sem controle e sem monitoramento", afirma Maria Teresa Corujo.

    Em nota, a Copasa informou que monitora continuamente a qualidade da água na bacia do Rio das Velhas, incluindo substâncias que representam potencial risco à saúde, como metais pesados.

    Segundo a companhia, as estações de tratamento contam com múltiplas barreiras de proteção capazes de reduzir contaminantes químicos e partículas associadas a metais presentes na água bruta.

    Estação de tratamento de água da Copasa, na Grande BH — Foto: Reprodução/ TV Globo

    Estação de tratamento de água da Copasa, na Grande BH — Foto: Reprodução/ TV Globo

    Quem vive às margens do rio relata perda de água e de peixes

    Quem vive às margens do rio também percebe as transformações acumuladas ao longo das últimas décadas.

    Morador de Rio Acima, o comerciante Nilton Gonçalves dos Santos lembra de um período em que o Rio das Velhas era mais profundo, mais limpo e mais rico em peixes.

    "Antes precisava dar braçadas para atravessar o rio. Hoje, em alguns pontos, dá para passar a pé. A água era tão limpa que a gente bebia dela. Hoje isso é impossível. Ainda existem peixes, mas muito menos do que antigamente. Ficou a saudade daquele rio", lamenta.

    Comerciante Nilton Gonçalves denunciou atual situação do Rio das Velhas — Foto: Reprodução/TV Globo

    Comerciante Nilton Gonçalves denunciou atual situação do Rio das Velhas — Foto: Reprodução/TV Globo

    Flagrantes da TV Globo levaram à operação contra o garimpo ilegal

    Após a produção da TV Globo identificar pontos de exploração ilegal, a Polícia Militar de Meio Ambiente e o Ibama montaram uma força-tarefa para combater a atividade criminosa.

    As equipes atuaram simultaneamente em trechos localizados entre Nova Lima, Raposos e Rio Acima. Máquinas e estruturas utilizadas na extração ilegal de ouro foram encontradas e destruídas. Parte dos equipamentos foi incendiada para impedir a continuidade da atividade.

    Um homem foi preso durante a ação. Segundo a polícia, ele possuía um mandado de prisão em aberto por envolvimento com garimpo ilegal em Goiás e foi encaminhado à Polícia Federal. Outros três suspeitos conseguiram fugir.

    Para os ambientalistas, porém, a fiscalização ainda não tem sido suficiente para interromper definitivamente a exploração clandestina.

    "O Rio das Velhas chega gritando por socorro. São anos de denúncias e de alertas. O que falta é uma ação permanente e efetiva para impedir que esse crime continue acontecendo", afirma Maria Teresa Corujo.

    Operação ocorreu em draga localizada na Região Metropolitana de BH — Foto: Reprodução/TV Globo

    Operação ocorreu em draga localizada na Região Metropolitana de BH — Foto: Reprodução/TV Globo

    Como o garimpo ilegal ameaça o Rio das Velhas e coloca em risco o abastecimento de água em Minas | G1