O vulcão de Poços e sua importância para a região

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ENORME VULCÃO — A caldeira Vulcânica de Poços de Caldas abrange, além da referida cidade, os municípios de Caldas, Santa Rita de Caldas, Águas da Prata, São Roque da Fartura, Andradas e Águas da Prata. Só é possível identificar as bordas do vulcão em imagens aéreas ou de satélite.

Por Ana Laura Moretto e Mateus Ananias

São João da Boa Vista e toda região são privilegiados por serras, terras ricamente férteis e paisagens exuberantes. O que muitos não sabem é que tudo isso é resultado de um vulcão extinto, em cujo centro situa–se hoje a cidade de Poços de Caldas.

A região sofreu, há 80 milhões de anos, uma intrusão (uma espécie de enxerto de rochas alcalinas no solo já existente) e, com o movimento intenso das rochas e do magma, que foi expulso durante a erupção vulcânica, a região foi elevada a mais de 500 metros de altitude em relação ao nível do mar.
Com o tempo, essas mesmas rochas esfriaram e o centro do vulcão sofreu um desabamento, formando uma espécie de “enorme cratera”, que deu origem ao que conhecemos hoje como Planalto de Poços de Caldas. As “serras” que dominam a paisagem da região, na verdade, fazem parte das bordas da caldeira do vulcão.

O tema do vulcão — já bastante conhecido — voltou à pauta por conta dos trabalhos recentemente desenvolvidos por alunos do curso de turismo rural do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR). “Esse vulcão era enorme, com cerca de 40 km de diâmetro. Por ser tão grande, se formou uma grande caldeira, com vários vulcões pequenos borbulhando dentro dela. Isso aconteceu durante milhares de anos”, explica a gestora ambiental, Alice de Abreu, uma das participantes do programa do SENAR.
Ela também expõe que, segundo os estudos do engenheiro Resk Frayha, foi essa atividade geológica que deu origem às águas sulfurosas e às riquezas minerais que fazem parte do complexo alcalino de Poços de Caldas, o único no mundo com essas características. O professor Francisco Sérgio Bernardes Ladeira, do Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade de Campinas), destaca que o que vemos hoje, com uma topografia mais elevada, não é exatamente o edifício externo do antigo vulcão, mas, sim, suas porções mais interiores, o que é chamado de caldeira. “Em grande medida o antigo vulcão já foi erodido”.
Essa incomum formação geológica trouxe muitos benefícios a toda região, loteando-a com diversos atrativos naturais, devido ao excelente clima, águas de características térmicas e sulfurosas, picos conhecidos mundialmente e solo rico em minerais, que tornam a terra naturalmente fértil.

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SERRA DA PAULISTA — Importante pela diversidade e riqueza de atividades ali desenvolvidas, a Serra da Paulista é um local fascinante por sua beleza natural. Inserida na área rural de São João da Boa Vista, abriga em torno de 470 pequenas propriedades rurais, com média de 20 hectares cada uma.

SERRA DA PAULISTA
“Em São João temos a Serra da Paulista, que se formou devido a essa atividade vulcânica. Assim como a Serra do Mirante, Serra do Deus Me Livre e Serra da Fartura, e que em conjunto formam a Serra da Boa Vista, como era conhecida na época da fundação de São João, e que originou o nome da cidade”, explica Antonio Carlos Lorette, arquiteto e historiador da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Minas Gerais. A serra é importante pela diversidade e riqueza de atividades ali desenvolvidas, abrigando em torno de 470 pequenas propriedades rurais, com média de 20 hectares cada uma. Composta por floresta tropical, com altitude especial, é rica em solo fértil e clima excelente.
“No sul de Minas, a presença das rochas alcalinas — denominadas de vulcanismo alcalino — permitiu a formação de solo com concentrações bauxíticas, ou seja, a concentração de alumínio que hoje é explorado na área. Já nas áreas alcalinas o solo não é muito fértil para plantio, pois é bastante ácido, necessitando de correções. Mas, na área da região de São João da Boa Vista, encontramos outras rochas de origem vulcânica mais antigas e que possuem diferentes características químicas, as quais permitem a formação de solos bastante férteis”, afirma o professor Francisco Sérgio, da Unicamp.

CAFÉS VULCÂNICOS
Aproveitando esses solos, a região se tornou uma grande produtora de cafés, com altos níveis de qualidade e possuidores de sabores e aromas especiais. Isso porque a altitude da região e o solo vulcânico, rico em nutrientes, são fatores que colaboram para a qualidade da bebida produzida.
De olho nesse potencial competitivo foi criada, em 2012, a Associação dos Produtores de Cafés Especiais da região de Poços de Caldas ou, como é conhecida, Cafés Vulcânicos.

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CAFÉ NO VULCÃO — Leandro Carlos Paiva, professor de indústria e qualidade do café do campus de Machado, do Instituto Federal do Sul de Minas, explica que a principal característica do café produzido é a acidez cítrica bastante intensa, com frutas amarelas e aromas florais.

Abrangendo produtores dos municípios mineiros e paulistas, o grupo tem o objetivo principal de tornar a região vulcânica de Poços de Caldas referência mundial na produção de cafés especiais. A associação já reúne quase quarenta produtores e busca, junto ao Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI), a identificação de procedência da área. Entre os associados, já existem cooperativas, exportadores, torradores, indústrias de cafés e cafeterias, além de produtores interessados em terem o selo de procedência, no futuro.
“A elevação vulcânica que temos lá (na região de Poços de Caldas), é a única no Brasil. Até onde a gente entende, não tem nenhuma outra formação vulcânica desse tipo. Poços de Caldas é o único município que está dentro da cratera. Mas estamos apostando no ‘terroir’, que é a influência do solo e do clima em determinado produto, no caso, o nosso café”, explica Leandro Carlos Paiva, professor de indústria e qualidade do café do campus de Machado, do Instituto Federal do Sul de Minas, em recente entrevista. Ele complementa explicando que a principal característica do café produzido é a acidez cítrica bastante intensa, com frutas amarelas e aromas florais.

ÁGUAS MEDICAMENTOSAS
Mas não foi só a agricultura que se beneficiou da formação geológica, o turismo também. A região possui mais de doze tipos de águas de diferentes propriedades terapêuticas e dermatológicas, com elementos químicos radioativos, bicarbonatadas e magnesianas.
Elas são inadequadas para o consumo diário, mas, sob prescrição de especialistas, podem auxiliar no tratamento de diversas doenças, especialmente gástricas e de pele.
O professor Sérgio Bernardes explica, ainda, que “a existência de todo vulcão implica na presença de manto (camada de rocha mais quente próxima da crosta) e, apesar dele não estar mais ativo por dezenas de milhões de anos, a crosta mais delgada permite a existência de águas aquecidas e com diferentes características químicas”.
Segundo Alice de Abreu, a tradição oral da região diz que, por volta do século XVIII, quando as terras do sul de Minas começaram a ser ocupadas por ex-garimpeiros, os quais passaram a se dedicar à criação de gado, os produtores perceberam que suas criações sempre lambiam a água que brotava de determinadas pedras, quando aparentavam estar doentes.
Por curiosidade, os moradores das fazendas começaram a utilizar essa água e descobriram que ela tinha algum tipo de propriedade especial.
A cidade de maior destaque na região, por conta de suas águas, talvez seja Poços de Caldas. Situada bem dentro da caldeira do vulcão, pelo menos desde 1886 já possuía uma casa de banho, utilizada para tratamento de doenças cutâneas. Ela se servia da água sulfurosa e termal da fonte da Praça Dom Pedro II. Em 1889, foi fundado, por Pedro Sanches, outro estabelecimento para o mesmo fim, captando água da Fonte Pedro Botelho. Ali, a água sulfurosa subia até os depósitos por pressão natural.
Em 1931 foram construídas as Thermas Antônio Carlos, em um dos mais belos prédios da cidade. O balneário passou a oferecer uma série de serviços e tratamentos corporais, a partir do uso da água termal, até então inexistentes no Brasil. Na década de 40, nos tempos dos cassinos, Poços recebia a visita da aristocracia brasileira, sendo que esta frequentava os salões do Palace Cassino e do Palace Hotel. A proibição do jogo, em 1946, e a descoberta do antibiótico, tiveram forte impacto para o turismo na cidade. O termalismo deixou de ser a maneira mais eficaz de tratar as doenças para as quais era indicado. E os cassinos foram fechados. A economia da cidade sofreu um grande abalo, mas a má fase foi superada com a mudança de foco no turismo. A classe média e grandes grupos passaram a frequentar as termas, a visitar as fontes e outros pontos de atração da cidade.

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THERMAS ANTONIO CARLOS — Um dos mais importantes atrativos de Poços de Caldas, foi inaugurado em 1931, o prédio encanta por sua arquitetura e mobiliário que preservam as suas características originais. O edifício é imponente e monumental e possui uma arquitetura onde predomina o estilo neoclássico. No local, o turista pode desfrutar de banhos termais, que curam e relaxam, além de limpeza de pele, massagem, sauna, dentre outros. Abriga salas de banho, vestiários, duchas, saunas, salas de inalações e pulverizações, todos com equipamentos e mobiliários originais.

TERRAS RARAS
Desde 1982, também por conta da formação geológica, as Indústrias Nucleares do Brasil (INB) exploram, em Poços de Caldas e Caldas (MG), terras raras e urânio. Os elementos terras raras compõem um grupo de 17 componentes da tabela periódica, possuindo propriedades químicas semelhantes e um vasto número de aplicações práticas. O termo “raras” não é para designar a dificuldade de encontrá-los no meio ambiente, pois, na realidade, até que são bastante abundantes na crosta terrestre, mas sim pela dificuldade de separá-los, a partir de seus minerais.
De acordo com Hermi de Brito, professor do Instituto de Química da USP e especialista no estudo dos elementos terras raras, estes possuem utilidade nos mais diversos campos tecnológicos. “Estão presentes nos conversores catalíticos dos automóveis, nas usinas petrolíferas, nos imãs de geradores elétricos, em bioensaios, lasers, displays, lâmpadas fluorescentes e LEDs. Algumas aplicações interessantes são, por exemplo, na área de comunicação por fibra óptica e na biomedicina”.

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HISTÓRIA LIGADA A ÁGUA — Em 1876 foi instalada a primeira engarrafadora de água em Águas da Prata. Em 1916, a cidade ganhou seu primeiro hotel.

ÁGUAS DA PRATA
No esteio do auge da cidade de Poços de Caldas, a pacata Águas da Prata também construiu uma fama invejável: a de ser a Vichy Brasileira.
Em 1876, a descoberta da fonte de água mineral, na margem do Ribeirão da Prata, por Rufino Luiz de Castro Gavião, proveniente de São João da Boa Vista, que ali fazia caçadas, é atribuída ao acaso. O caçador percorria as terras do Alegre quando percebeu a preferência dos animais silvestres pela água da nascente. Resolvendo prová-la, surpreendeu-se com suas qualidades. O fato foi relatado e comprovado por outras pessoas. A inauguração do ramal da Estrada de Ferro Mogiana, ligando Cascavel (hoje Aguaí) a Poços de Caldas (então Caldas), em 1886, despertou o interesse dos cafeicultores da região para a estação de embarque da ferrovia, no vale banhado pelo Ribeirão da Prata e o Córrego da Platina, que passaram a construir suas residências junto à estação, nascendo então um povoado.
Em 1876 foi instalada a primeira engarrafadora de água no então bairro de São João da Boa Vista, que passou a distrito em 1926 e foi emancipado em 1935. Em 1916 fez-se o primeiro hotel e, por iniciativa particular de seus moradores, foi efetuada a análise química da água das fontes, constatando-se suas propriedades alcalinas, semelhantes às das fontes da cidade de Vichy, na França. Desde então, Águas da Prata ficou conhecida com o cognome de a Vichy Brasileira.

Para se ter uma ideia da importância dessa descoberta, basta destacar que a água de Vichy possui 15 minerais diferentes, com a habilidade de acelerar o processo de cura de ferimentos, além de benefícios para a pele. Atualmente é possível comprar um frasco de 50ml da água francesa por cerca de R$ 50,00.
“Segundo os estudos, essas características acontecem pelo tipo de lugar que essa água surge, nos fonólitos, que é uma rocha vulcânica não muito comum de ser encontrada. Ela adquire essas propriedades que propiciam ao organismo humano os mesmos benefícios que a água francesa, especialmente na dermatologia, pois suas propriedades minerais são excelentes no tratamento de regeneração e recuperação da pele”, explica Erik Brumann, guia turístico local.

Em 2016, a Fundação Banco do Brasil, em parceria com a Associação dos Amigos do Caminho da Fé, realizou o projeto de revitalização das fontes hidrominerais do município de Águas da Prata. Foram investidos R$ 1,1 milhão de reais para promover o desenvolvimento sustentável do município, valorizando seu potencial turístico hidrotermal, por meio da revitalização de suas fontes e da sensibilização e capacitação da população local.Além disso, o projeto proporcionou estudos aprofundados no território das fontes contempladas, como análise das águas, avaliações e autorizações dos órgãos competentes, reformas e adaptações nas fontes, conforme legislação vigente, além da arquitetura dos bivetes, reconstruindo sua identidade. Além da Fundação BB, o projeto contou também com a parceria da Prefeitura Municipal de Águas da Prata e da Associação Comercial de São João da Boa Vista, através do Programa Empreender. Segundo Érik, a prefeitura de Águas da Prata estima que, anualmente, cerca de 200 mil pessoas passam pela cidade, por conta dessas águas medicamentosas.

O planalto de Poços de Caldas e suas cercanias, criadas pelo extinto vulcão, não são apenas um elemento geológico característico da região. Graças a ele, nossa cidade e toda região ganharam muitos benefícios, seja no campo econômico, turístico, científico, histórico, além da exuberância arquitetônica e paisagística.

A Atua Revista é uma publicação da Associação Comercial de São João da Boa Vista. Sua distribuição é gratuita. Siga-nos no www.facebook.com/atuarevista

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