domingo, 1 de fevereiro de 2026

Steve Bannon: "Tenho de manter isso de Bolsonaro nos bastidores"

 Conversa de ideólogo da ultradireita com homem não identificado foi divulgada nesta sexta (30) pelo governo Trump


Steve Bannon fala a repórteres fora do tribunal um dia antes de ser condenadocrédito: Getty Images

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Steve Bannon, um dos principais ideólogos e estrategistas da ultradireita global, afirmou que precisava "manter essa coisa do Jair [Bolsonaro] nos bastidores" em diálogo que consta nos lotes de arquivos do caso de Jeffrey Epstein, financista morto em 2019, divulgados pelo governo de Donald Trump nesta

    No documento, que aparenta ser um chat de mensagens e é datado de 12 de outubro de 2018 -cinco dias após o primeiro turno da eleição entre Jair Bolsonaro (PL) e Fernando Haddad (PT)- duas pessoas conversam sobre temas diversos. Uma delas é Bannon; o nome da outra está sob tarjas, mas, com base em conversas anteriores, possivelmente é Epstein.

    Estima-se que o bilionário americano, que se suicidou na prisão em 2019, antes de ser julgado, tenha traficado mais de mil adolescentes em um esquema de coação em que cada menina recrutada chamava outra. O caso ganhou notoriedade não apenas pela gravidade dos crimes, mas também pela associação de Epstein com figuras públicas e poderosas.

    Uma delas é Trump que, durante sua campanha de 2024, prometeu revelações contundentes sobre o financista à sua base de eleitores, obcecada com o caso há anos. Ao chegar ao poder, porém, o republicano relutou em liberar os arquivos.

    Na troca de mensagens divulgada nesta sexta, a pessoa de identidade desconhecida afirma: "Não gostei de Bolsonaro chamando qualquer associação com você de 'fake news', embora eu compreenda". "Eu preferiria um boné MBGA [possível menção a Make Brazil Great Again]", continua. Bannon, então, responde: "Tenho de manter a coisa do Jair nos bastidores. Meu poder vem de não ter ninguém me defendendo".

    Dois dias antes, o indivíduo desconhecido e Bannon haviam comentado sobre a eleição no Brasil.

    "Bolsonaro é um divisor de águas. Sem refugiados querendo entrar. Sem Bruxelas dizendo a ele o que fazer. Ele só tem de reiniciar a economia. GIGANTE. 1,8 trilhão PIB", diz a pessoa que, provavelmente, é Epstein. Bannon, então, responde: "Eu sou muito, muito próximo desses caras -eles me querem como conselheiro. Devo fazer isso?".

    Em agosto daquele ano, o estrategista havia se encontrado com o Eduardo Bolsonaro em Nova York. Na ocasião, o ex-deputado federal disse que Bannon era um entusiasta de Jair Bolsonaro e que os dois manteriam contato "para somar forças, principalmente contra o marxismo cultural". Em novembro, depois da conversa, portanto, Eduardo esteve no jantar de aniversário de Bannon, em Washington.

    "É meio que reinar no inferno", diz o interlocutor em resposta. "Diferente da Europa e o jogo de bridge, América do Sul é mais tipo joga as 52 para o alto e pega." A frase faz uma provável referência ao bridge, um jogo de cartas com muitas regras, e uma brincadeira em que se espalha as 52 cartas do baralho.

      Bannon responde: "Eu entendo -massa crítica'- se você controla o Brasil e 25 países na Europa, isso é vantagem".

      Em um terceiro documento, novamente uma pessoa sem nome, mas com número de telefone, conversa sobre uma possível visita de Bannon ao Brasil com uma pessoa identificada como "Miro Lajcak".

      O número de telefone da pessoa desconhecida corresponde ao citado como "telefone do Epstein" em outro documento divulgado pelo arquivo. Já Miro Lajcak pode se referir a Miroslav Lajcak, chanceler da Eslováquia de 2012 a 2020, que é citado em diversos documentos divulgados, como emails, mensagens e alertas de eventos em um calendário.

      Nessa suposta conversa entre Lajcak e Epstein, datada de 9 de outubro de 2018, a pessoa que seria o financista diz que "Steve está pensando em ir ao Brasil para ver Bolsonaro". Lajcak pergunta se não é melhor a visita ocorrer "depois do segundo turno". A pessoa que seria Epstein pergunta: "Você acha que seria melhor ele esperar?" A resposta de Lajcak é: "Depende do motivo para a viagem, mas depois é mais seguro".

        Em um quarto documento, datado do mesmo dia 9 de outubro de 2018, uma terça-feira, a pessoa não identificada diz a Bannon: "Sobre Bolsonaro: se você está confiante de uma vitória, pode ser bom para a marca se você estivesse lá". O estrategista responde: "Pode ser que eu vá no sábado".

        No mesmo diálogo, o interlocutor diz: "Miro acha mais seguro ir ao Brasil DEPOIS do segundo turno". Bannon, então, pergunta: "Por que Miro acha melhor depois?". Em seguida, a conversa muda de assunto.

        Em disparada, maus-tratos vitimam legião de "Orelhas" em Minas

         Violência contra cão de SC que chocou o país não é isolada. Apenas em território mineiro, os ataques cresceram 47,9% em 11 meses


        Atacado na Praia Brava, em Santa Catarina, em 4 de janeiro, o cão comunitário Orelha teve que ser submetido a eutanásia devido à gravidade dos ferimentos
        crédito: Reprodução/Redes Sociais


        “Orelhas são muitos e muitas”, afirma Adriana Araújo, coordenadora do Movimento Mineiro pelos Direitos Animais (Mmda). A ativista faz referência ao ataque brutal, ocorrido em 4 de janeiro, que resultou na morte do cão comunitário Orelha, em Santa Catarina. O caso repercutiu nacionalmente e reacendeu o alerta do país para os maus-tratos a animais. Em Minas Gerais, o número de “Orelhas” aumentou.

          Dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) revelam que de 2024 a 2025, considerando o período entre janeiro e novembro, os registros de maus-tratos a animais consumados foram de 4.148 para 6.135, o que representa um crescimento de 47,9%. Ativistas avaliam que cenário pode refletir, ao mesmo tempo, um quadro de penas leves e uma população mais consciente sobre o direito animal na hora de denunciar. Hoje uma manifestação em Belo Horizonte cobra justiça.

          Daniela Recchioni, advogada e presidente da Comissão Estadual de Direitos dos Animais da OAB-MG, acredita que o aumento de registros de maus-tratos a animais tenha relação com a sensação de impunidade. Ela avalia que a pena é branda e insuficiente para inibir a pessoa de cometer o crime. Além disso, Recchioni acredita que a sensação de que “não vai dar em nada” desmotiva outras pessoas a denunciarem os crimes.

          “Deveríamos ter leis mais duras (...) As leis no Brasil ainda são fracas e a polícia ainda não tem um aparato específico (para esses casos), ela não dá conta de todas as ocorrências”, afirma a presidente da Comissão Estadual de Direitos dos Animais da OAB-MG. Atualmente, a pena para maus-tratos contra cães e gatos é de reclusão de dois a cinco anos, multa e proibição da guarda dos animais.

          Daniela Sousa, ativista da causa animal e jornalista, também acredita que haja falta de responsabilização para os autores dos crimes. “A população está exausta, cansada, sufocada de ver tanta impunidade, desrespeito as leis e crueldade contra animais”, afirma.

          Para ela, os poderes Executivo, Judiciário e Legislativo não atuam de maneira eficaz contra esses crimes. “Quem toma frente e vai para a linha de batalha para tentar dar o mínimo de dignidade para os animais é a população, a sociedade civil organizada, são os protetores — que estão adoecidos, lotados de dívidas, que sofrem deboches e são desqualificados.”

          Para Adriana Araújo, coordenadora do Movimento Mineiro pelos Direitos Animais (Mmda), faltam fiscalização e políticas públicas para proteger os animais no estado, assim como uma melhora nos canais de denúncia.

            Estado de Minas perguntou à Sejusp em quantos registros de maus-tratos em Minas e BH os autores sofreram punições, mas a pasta informou que esse monitoramento não é sua competência. A reportagem também solicitou à Polícia Civil o número de inquéritos relativos a esse crime instaurados em 2025 e ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) quantas denúncias foram oferecidas e acatadas, mas não obteve retornos até o fechamento desta edição.

            MAIS DENÚNCIAS


            A presidente da Comissão Estadual de Direitos dos Animais da OAB-MG acredita que o aumento nos registros de maus-tratos a animais em Minas também pode ser um reflexo da conscientização de parte da população. “As pessoas hoje conseguem entender que maus-tratos é crime, e que os animais têm direitos e podem sofrer de muitas maneiras”, afirma Daniela Recchioni. Adriana Araújo também acredita que o aumento da consciência sobre os direitos dos animais e da cobrança dos ativistas pode ajudar inibir os autores de maus-tratos. 

            Na direção oposta ao cenário de Minas Gerais, os registros de maus-tratos aos animais consumados no mesmo período caíram em Belo Horizonte, de 394 ocorrências para 344, um recuo de 12,69%. Adriana Araújo atribui a redução ao trabalho do movimento de proteção a todas as espécies de animais na capital mineira. “O povo está cada vez mais vigilante”, diz.


            A coordenadora do Mmda, que em 2026 completa 20 anos de existência, também destaca o investimento do movimento na conscientização quanto à legislação, a criação da Delegacia Especializada de Investigação de Crimes contra a Fauna e a Coordenadoria Estadual de Defesa dos Animais (Ceda) do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG). Mas, apesar da redução, Adriana destaca que ainda há muito a ser feito para garantir a proteção de todas as espécies de animais.


            DESAFIOS

            Um dos pontos em Belo Horizonte que revela o caminho ainda a ser percorrido na defesa animal é a Estrada do Sanatório, localizada entre os bairros Solimões e Ribeiro de Abreu, na Região Norte da cidade, onde muitos animais são abandonados. “A crueldade contra os animais não acontece só quando há violência explícita, ela também se manifesta todos os dias no abandono. O que fizeram com o Orelha foi um ato cruel, que choca e revolta. Mas, na prática, o abandono frequente de animais nas ruas, especialmente na Estrada do Sanatório, também é uma forma de violência, lenta, silenciosa e, muitas vezes, fatal”, afirma Joyce Mendes, coordenadora do projeto Amor a Quatro Patas, que realiza resgates no local.


            De acordo com informações do governo de Minas enviadas à reportagem em dezembro do ano passado, a legislação estadual promove controle populacional via castração e microchipagem, além de programas de resgate, adoção e educação para a posse responsável, combatendo o abandono com ações conjuntas, inclusive de conscientização com municípios e ONGs.

            CASOS RECENTES


            Neste mês, casos de maus-tratos a animais foram registrados em Minas e BH. Na sexta-feira (30/1), mãe e filho foram presos em flagrante por maus-tratos a animal doméstico em Itumirim, no Sul de Minas. Segundo a equipe do Grupamento de Polícia Militar de Meio Ambiente de Lavras os suspeitos teriam agredido uma cadela da raça boxer dentro de casa, e, em seguida, levado o animal para uma área de mata. Lá, a cadela teria sido amarrada e agredida a pauladas. Após acharem que a cachorra estava morta, eles a teriam jogado na mata e ido embora. A cadela foi encontrada com feridas na cabeça e nos olhos. Com o apoio de uma protetora local, a cachorra foi encaminhada a uma clínica veterinária para atendimento e demais cuidados.


            Na quarta-feira (28/1), um homem de 60 anos foi preso suspeito de praticar maus-tratos contra cães no município de Guaxupé, no Sul do estado. A ação foi realizada após denúncia. Durante a fiscalização, os agentes encontraram uma série de irregularidades. Os cães viviam em confinamento, sem alimentação apropriada e água potável. Em alguns casos, a comida oferecida estava estragada. Foi identificado acúmulo de resíduos orgânicos no ambiente e a exposição constante ao sol e à chuva. A ocorrência contou com o apoio de uma médica veterinária do município, que elaborou um laudo técnico, que constatou o sofrimento físico e debilidade extrema em parte dos animais.


            No mesmo dia da prisão do homem no Sul de Minas, casinhas para cães comunitários foram queimadas no Bairro Jardim Canadá, em Nova Lima, na Região Metropolitana de BH. O caso foi denunciado pela ONG Adote Jardim, que relatou que as estruturas já haviam sido destruídas antes. Em nota, a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) informou que apura os casos e realiza diligências visando identificar os envolvidos.

            LEI SANSÃO


            Em 2020, um pitbull chamado Sansão tornou-se um símbolo depois de ter as patas traseiras arrancadas por agressores com o uso de um facão. O crime ocorreu em Vespasiano, na Grande BH. A veterinária que cuidou dele na época afirmou que o cachorro foi amarrado pela boca com arame farpado para que pudessem cortar suas patas sem que reagisse.

            A história de Sansão causou comoção em todo o país, com a criação de um abaixo-assinado que pedia mais rigor para punir crimes contra animais. Em cinco dias, mais de 500 mil pessoas pediram justiça por Sansão. O cachorro recebeu doações para tratamento, cadeira de rodas e próteses para a readaptação. Um perfil foi criado nas redes sociais para mostrar a rotina de cuidados e agradecer o apoio à causa.

            Após o crime cometido contra Sansão, o Projeto de Lei nº 1.095/2019, que tramitava no Congresso Nacional, se transformou na Lei Federal nº 14.064/2020 e foi batizado com o nome do cachorro. A ação representou uma alteração da lei de crimes ambientais, que agora aumenta o castigo para maus-tratos contra cães e gatos, cuja pena vai de dois a cinco anos de reclusão, incluindo multa e perda da guarda do animal.

            ATAQUE NA PRAIA


            A nova legislação, entretanto, ainda não foi suficiente para deter os crimes contra animais. No caso recente que chocou o país, Orelha, de cerca de 10 anos de idade, foi atacado por quatro adolescentes na Praia Brava, litoral de Santa Catarina, em 4 de janeiro. No dia 5, foi submetido a eutanásia por um veterinário devido à gravidade dos ferimentos.


            Na sexta-feira, dois dos quatro adolescentes suspeitos da violência contra Orelha voltaram ao Brasil após viagem para a Disney, nos Estados Unidos. A Polícia Civil de Santa Catarina fez uma operação no aeroporto durante a chegada deles, cumprindo mandado de busca e apreensão de celulares dos dois jovens. Eles foram intimados a prestar depoimento às autoridades e seus celulares encaminhados à Polícia Científica, que fará a análise e extração de dados. Além dos quatro adolescentes, pais de dois deles e um tio, segundo a polícia, são suspeitos de coagir testemunhas e atrapalhar as investigações.


            Hoje (1º/2), uma manifestação para pedir justiça para o caso Orelha será realizada na capital mineira. O ato será realizado na Feira Hippie, na Avenida Afonso Pena, na Região Centro-Sul de BH. O ponto de encontro será na Rua dos Guajajaras, na entrada da feira, às 10h.

            *Com informações de Fernanda Santiago e Agência Brasil

            Em disparada, maus-tratos vitimam legião de "Orelhas" em Minas