Flagrantes feitos pela TV Globo entre Raposos e Rio Acima mostraram dragas em operação no leito do rio. Produção motivou operação que destruiu equipamentos e levou à prisão de um suspeito nesta sexta-feira (29).
Por Larissa Carvalho, Luis Gurgel, Leonardo Lages, Saulo Vieira, TV Globo — Belo Horizonte
A operação que destruiu dragas e resultou na prisão de um suspeito de garimpo ilegal no Rio das Velhas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, nesta sexta-feira (29), teve origem pela produção da TV Globo que identificou pontos de exploração clandestina ao longo do rio.
Durante vários dias, a equipe percorreu trechos entre Raposos e Rio Acima e registrou equipamentos em funcionamento, áreas degradadas e estruturas usadas na retirada irregular de ouro.
Os flagrantes revelam uma ameaça que preocupa ambientalistas, pesquisadores e órgãos de fiscalização: a degradação de um dos principais rios de Minas Gerais e os riscos à qualidade da água que abastece cerca de 3 milhões de pessoas na Grande BH. Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que a atividade provoca:
- Assoreamento
- Destruição da fauna aquática
- Contaminação por substâncias tóxicas
- Remobilização de metais pesados acumulados no leito do rio ao longo de séculos de exploração mineral
Garimpo ilegal em diferentes trechos do Rio das Velhas
A equipe da TV Globo percorrreu às margens do Rio das Velhas e, em Raposos, flagrou um homem operando uma draga dentro do rio. O equipamento é utilizado para revolver sedimentos do fundo em busca de pequenas quantidades de ouro.
Suspeito flagrado cometendo extração irregular em Raposos, na Região Metropolitana de BH — Foto: Reprodução/ TV Globo
Já em Rio Acima, imagens feitas por drone localizaram rapidamente dois pontos de exploração. Em um deles, havia uma estrutura montada para a atividade, com draga e retroescavadeira. Em outro trecho, trabalhadores deixaram o local ao perceber que estavam sendo filmados.
Imagens de drone mostram suspeitos e máquinas em garimpo ilegal na cidade de Rio Acima (MG) — Foto: Reprodução/TV Globo
Para Marcus Polignano, coordenador do Projeto Manuelzão, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o lucro obtido pelos garimpeiros não compensa os danos ambientais provocados pela atividade.
"O que existe hoje é muito pouco ouro. Para conseguir uma quantidade mínima, é preciso revolver uma enorme quantidade de sedimentos. É muita destruição, devastação e contaminação por causa de um benefício muito pequeno", afirma.
Garimpo revolve sedimentos e libera contaminantes acumulados há séculos
A relação entre o Rio das Velhas e a exploração do ouro iniciou no período colonial. Registros históricos indicam que uma das primeiras descobertas do metal precioso em Minas Gerais ocorreu nas águas do rio, em 1677, entre Sabará e Lagoa Santa.
Segundo Polignano, os séculos de mineração deixaram marcas que permanecem até hoje.
"Os bandeirantes vieram pelo Rio das Velhas e descobriram aqui o ouro que deu origem à ocupação de cidades como Sabará, Ouro Preto e Nova Lima. Esse processo deixou marcas profundas. Ainda existem mercúrio, cianeto e sedimentos contaminados depositados no leito do rio", explica.
O problema é que, sempre que uma draga revolve o fundo do rio, parte desses materiais pode voltar a circular na água.
Atividade aumenta turbidez da água e ameaça a vida aquática
A ambientalista Maria Teresa Corujo, integrante do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas, afirma que o garimpo ilegal gera uma série de impactos simultâneos.
"Eles mexem no leito para procurar ouro e isso aumenta a turbidez da água. A qualidade da água se deteriora, a biota aquática é destruída e metais pesados podem ser remobilizados. Além disso, no beneficiamento do minério são utilizados produtos químicos que acabam retornando ao rio", alerta.
Contaminação pode atingir captação que abastece cerca de 3 milhões de pessoas
Uma das maiores preocupações dos especialistas é o impacto da atividade sobre a captação de água realizada pela Copasa em Honório Bicalho, distrito de Nova Lima.
É desse sistema que sai parte da água consumida por cerca de 3 milhões de pessoas na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
"Qualquer aumento de turbidez, produto tóxico ou metal pesado revolvido pode chegar à captação. Existem contaminantes que não são facilmente removidos pelos sistemas convencionais de tratamento. É uma atividade feita sem licença, sem controle e sem monitoramento", afirma Maria Teresa Corujo.
Em nota, a Copasa informou que monitora continuamente a qualidade da água na bacia do Rio das Velhas, incluindo substâncias que representam potencial risco à saúde, como metais pesados.
Segundo a companhia, as estações de tratamento contam com múltiplas barreiras de proteção capazes de reduzir contaminantes químicos e partículas associadas a metais presentes na água bruta.
Estação de tratamento de água da Copasa, na Grande BH — Foto: Reprodução/ TV Globo
Quem vive às margens do rio relata perda de água e de peixes
Quem vive às margens do rio também percebe as transformações acumuladas ao longo das últimas décadas.
Morador de Rio Acima, o comerciante Nilton Gonçalves dos Santos lembra de um período em que o Rio das Velhas era mais profundo, mais limpo e mais rico em peixes.
"Antes precisava dar braçadas para atravessar o rio. Hoje, em alguns pontos, dá para passar a pé. A água era tão limpa que a gente bebia dela. Hoje isso é impossível. Ainda existem peixes, mas muito menos do que antigamente. Ficou a saudade daquele rio", lamenta.
Comerciante Nilton Gonçalves denunciou atual situação do Rio das Velhas — Foto: Reprodução/TV Globo
Flagrantes da TV Globo levaram à operação contra o garimpo ilegal
Após a produção da TV Globo identificar pontos de exploração ilegal, a Polícia Militar de Meio Ambiente e o Ibama montaram uma força-tarefa para combater a atividade criminosa.
As equipes atuaram simultaneamente em trechos localizados entre Nova Lima, Raposos e Rio Acima. Máquinas e estruturas utilizadas na extração ilegal de ouro foram encontradas e destruídas. Parte dos equipamentos foi incendiada para impedir a continuidade da atividade.
Um homem foi preso durante a ação. Segundo a polícia, ele possuía um mandado de prisão em aberto por envolvimento com garimpo ilegal em Goiás e foi encaminhado à Polícia Federal. Outros três suspeitos conseguiram fugir.
Para os ambientalistas, porém, a fiscalização ainda não tem sido suficiente para interromper definitivamente a exploração clandestina.
"O Rio das Velhas chega gritando por socorro. São anos de denúncias e de alertas. O que falta é uma ação permanente e efetiva para impedir que esse crime continue acontecendo", afirma Maria Teresa Corujo.
Operação ocorreu em draga localizada na Região Metropolitana de BH — Foto: Reprodução/TV Globo

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