Locomotiva foi doada pela Vale ao município em 1988 e está exposta na Praça da Estação desde 1996; tombamento aconteceu em 2001.
Por Fábio Monteiro — g1 Vales de Minas Gerais
Locomotiva se transforma em casa improvisada na Praça da Estação — Foto: Fábio Monteiro/Inter TV dos Vales
Quem chega a Governador Valadares, por qualquer uma de suas
entradas, seja por terra ou pelo ar, tem, como boas vindas, a visão do maior
cartão-postal da cidade: o Pico da Ibituruna. No entanto, quem pisa em solo
valadarense, chegando pela Estrada de Ferro Vitória a Minas, é recepcionado por
uma situação de abandono.
A Praça Dr. João Paulo Pinheiro, também chamada Praça da
Estação, revitalizada por meio de uma parceria entre a Prefeitura Municipal e a
Vale, atualmente é ocupada por pessoas em situação de rua e usuários de droga.
Em meio a isso, um patrimônio histórico da cidade,
importante não só para o desenvolvimento da região, mas também para o Brasil,
vem, há anos, sofrendo a ação de vândalos e tem se tornado uma moradia
improvisada.
Prestes a completar 100 anos de fabricação, a Maria Fumaça
foi doada pela Vale ao município em 1988 e é uma das duas únicas locomotivas do
tipo existentes no país. A outra está exposta, bem conservada e protegida, no
Museu Ferroviário, em João Neiva (ES).
Em Governador Valadares, a Maria Fumaça foi colocada na
Praça da Estação em 1996, onde virou atração para valadarenses e turistas que
chegavam nas composições vindas de Vitória (ES) e de Belo Horizonte.
Em 2001, a locomotiva foi tombada como Patrimônio Histórico
da cidade e, em 2003, foi repintada com as cores originais.
A partir da revitalização da Praça da Estação, em 2012, a
Maria Fumaça passou a ser alvo, não só de cliques das máquinas fotográficas,
mas também da ação de vândalos.
Além de receber pichações, o ponto turístico sofreu com a
falta de manutenção. Pessoas em situação de rua e usuários de drogas passaram a
usar a máquina como banheiro.
Os problemas surgidos com a praça, que acabou não servindo
ao propósito da sua revitalização, a circulação de usuários de drogas e a
ausência de uma intervenção do poder público afastaram a população em geral e
deixaram todo o equipamento à mercê de vândalos.
O cenário atual da Praça da Estação é de barracas
espalhadas, usuários de drogas, pessoas em situação de rua e uma Maria Fumaça
que se transformou em moradia improvisada.
Locomotiva doada pela Vale ao município completa 100 anos em
2025 — Foto: Fábio Monteiro/Inter TV dos Vales
Início do desenvolvimento da região
Para o historiador Haruf Salmen Espindola, a Maria Fumaça
simboliza o início do processo de desenvolvimento da região e foi fundamental,
não só para ela, como para todo o estado de Minas Gerais e também para o
Brasil.
Segundo ele, a estrada de ferro chegou à região por volta de
1910, quando foi inaugurada a primeira estação ferroviária na área entre o
Fórum e a Praça dos Pioneiros.
Nesta época, conforme o historiador, o lugarejo, onde hoje é
Governador Valadares, tinha cerca de 500 habitantes.
Cerca de 20 anos após a chegada da estrada de ferro, de
acordo com Haruf, o assunto emancipação já começa a tomar forma até que, em 30
de janeiro de 1938, Governador Valadares é elevada à condição de município.
“Então, a Maria Fumaça simboliza tudo isso, a inclusão dessa
região no processo de desenvolvimento econômico, social e histórico não só de
Minas Gerais, mas também do Brasil”, explicou.
Outro fato lembrado pelo historiador foi a chegada da
primeira ajuda médica à região por ocasião de um surto de febre amarela. “Foi a
estrada de ferro que possibilitou essa ajuda”, afirmou.
Para Haruf, a deterioração e consequente perda de um
patrimônio histórico significa também a perda de identidade e de pertencimento.
“Preservar o patrimônio é fortalecer a identidade, o
pertencimento. É fortalecer a territorialidade. Estes são os principais ativos
que servem de lastro para que o desenvolvimento ocorra. Sempre há uma
preocupação grande com o turismo da cidade. Mas para isso, os moradores
precisam ser turistas da sua própria cidade. Precisam gostar da cidade, ter o
que ver, gostar de ver. Porque se a gente não for turista da nossa própria
cidade, como vamos vendê-la para que ela possa ser visitada pelas pessoas de
fora?”, conclui o historiador.
“Camboninha” tem “irmã gêmea” exposta em museu no ES
Locomotiva de João Neiva está exposta no Museu Ferroviário,
como FC1, que na verdade é o nome da Maria Fumaça de Valadares — Foto: Museu
Ferroviário de João Neiva
A Maria Fumaça foi fabricada em 1925, pela Rheinische Metall
Waren und Machinen Fabrik, em Düsseldorf, na Alemanha.
De acordo com o pesquisador Harley Cândido, trata-se de uma
locomotiva tanque, de pequeno porte, utilizada sobre trilhos com bitola
estreita.
O nome da máquina, FC1, foi uma homenagem ao primeiro chefe
de tráfego da Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM), Felippe Carpenter, que
morreu em dezembro de 1911. Os antigos ferroviários da EFVM apelidaram a
locomotiva de “Camboninha”.
Com quase cinco metros de comprimento, três de altura e dois de largura, a locomotiva fazia o transporte de dormentes de madeira, trilhos e das pessoas que trabalhavam na manutenção da ferrovia.
Segundo o pesquisador, a FC1 se revezava com outra máquina
semelhante, batizada de FC2, nos serviços de construção da linha ou nas
manobras na oficina de João Neiva (ES).
Em 1956, as duas locomotivas foram retiradas de operação e,
em 1958, foram baixadas. A FC1 foi enviada a Governador Valadares e a FC2,
entregue à Escola SENAI Ferroviária, de João Neiva, onde está exposta no Museu
Ferroviário em perfeitas condições.
Registro da Felippe Carpenter 1 (FC1), a Maria Fumaça, feito
em 1954 — Foto: Álbum de Locomotiva da EFVM
Em 1960, a Maria Fumaça é posta no pátio interno da Estação
Ferroviária, em Governador Valadares, e em 1988, ela é doada, oficialmente,
pela então Companhia Vale do Rio Doce ao município.
A locomotiva foi colocada, em 1996, como monumento na Praça
da Estação, que acabara de passar por uma reforma.
O tombamento da Maria Fumaça como patrimônio histórico da
cidade aconteceu em 2001. Em 2003, ela foi repintada nas cores originais e
permaneceu exposta na praça.
Em janeiro de 2012, a Praça da Estação foi revitalizada por
conta de uma parceria entre a Prefeitura Municipal e a Vale. Os investimentos
foram de R$ 3,4 milhões.
No entanto, a promessa de um ambiente que proporcionaria à
população mais opções de cultura e lazer acabou se transformando em uma grande dor
de cabeça, principalmente para moradores e comerciantes locais.
A falta de segurança e iluminação precária acabou atraindo
usuários de drogas e moradores em situação de rua.
Para Harley, a Maria Fumaça é peça fundamental na história
da construção da EFVM. Ele lamenta a falta de interesse do poder público em
preservar essa importante parte da história.
“O carinho que há pela locomotiva que está no Museu
Ferroviário de João Neiva é tanto que eles tiraram a placa FC2 dela e colocaram
FC1, como se ela fosse a primeira, sendo que a primeira é a que está em
Valadares. Qualquer livro de ferrovia comprova isso. Fizeram de propósito
porque a de lá está muito bem preservada e a daqui está nessas condições”,
explica o pesquisador.
Harley lembra ainda que o município de Governador Valadares
já perdeu um patrimônio histórico. A venda do seu Margarido era uma propriedade
antiga localizada na rua Sá Carvalho, Centro da cidade, que chegou a ser
tombada mas teve o ato revogado em 2005. A falta de preservação deteriorou a
construção que acabou cedendo com o tempo.
“Na grande maioria das vezes, os patrimônios históricos são
bens não fungíveis (que não podem ser substituídos). A partir do momento em que
você perde, não tem como repor. É como a venda do seu Margarido. Se você quiser
fazer outra, vai fazer uma nova. Mas ela não será mais a venda do seu
Margarido. E assim pode acontecer com a Maria Fumaça”, alerta ele.
Harley lamenta também o atual estado da locomotiva da Praça
da Estação. Segundo ele, com a perda do patrimônio histórico, a cidade perde
também sua história e o seu respeito às futuras gerações.
“Eu acho que isso é o ponto chave. Uma cidade sem raízes não
tem história. E, aqui, o que menos se preserva é a história”, conclui.
Imagem aérea da Praça da Estação com moradias improvisadas — Foto: Fábio Monteiro/Inter TV dos Vales
Problema social x preservação do patrimônio
Para historiadora Sandra Nicoli, mestre em gestão integrada
do território e integrante do Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural
desde 2018, a discussão da preservação da Maria Fumaça extrapola a questão do
patrimônio cultural e envolve outros conselhos e secretarias.
O problema social detectado por qualquer pessoa que chegue à
cidade pela Praça da Estação ou que transite por ela, seja qual for o destino,
é manifesto.
“Uma população que chegou àquele local, se apropriou e está
lá. Ali há um problema social, de fato. É triste ver também que, antes dessa
população estar ali e permanecer ali, também havia um certo descuido tanto da
gestão municipal, na questão de investir ali, na questão da preservação, da
proteção, do zelo, quanto da população que também estava passando, visitando.
Não é, de fato, um problema somente da população que está residente na praça
neste momento”, diz a historiadora.
Sandra explica que, desde antes dela integrar o Conselho, já
havia discussões sobre a preservação da Maria Fumaça.
Segundo ela, os debates, no sentido da preservação do
patrimônio em si, focavam na proteção da locomotiva, da ferragem, dos
parafusos, da tintura e de tudo que envolvia a máquina.
Documento de doação
Para Sandra, é importante que se encontre o termo de doação
da Maria Fumaça pela então Companhia Vale do Rio Doce, atual Vale, à prefeitura
de Governador Valadares.
Segundo a historiadora, o documento é importante para que se
conheça todos os itens doados e as contrapartidas das partes envolvidas e,
assim, saber quais são as obrigações do município e até da própria Vale.
“Esse documento pode nos fortalecer enquanto Conselho
Deliberativo do Patrimônio Cultural, enquanto sociedade e enquanto gestão
municipal”, diz Sandra.
Prefeitura diz que vai restaurar Maria Fumaça
Procurada pelo g1, a prefeitura de Governador Valadares
informou que a Secretaria Municipal de Cultura, Esporte, Lazer e Turismo
iniciou processo de licitação para restauração completa da Maria Fumaça.
Os recursos seriam provenientes do Fundo Municipal de
Proteção ao Patrimônio Histórico e Cultural. Por meio de nota, o município diz
que, após a reforma, serão discutidas com o Conselho de Patrimônio Histórico e
Cultural sobre “o cercamento do local, a exemplo do que acontece em Teófilo
Otoni, ou o encaminhamento da Maria Fumaça para o seu local de origem: a antiga
estação ferroviária, próximo à Praça dos Pioneiros”.
Sobre a Praça da Estação, a prefeitura informou que atua
rotineiramente na manutenção dos espaços públicos, “mas, infelizmente, a
conservação desses espaços também depende da população”.
O município explica ainda, na nota, que “todo encaminhamento
realizado pela Secretaria Municipal de Assistência Social é realizado com base
na Constituição Federal de 1988, que assegura o direito ao acesso a serviços
públicos de assistência social e saúde, além do art. 5º, XV, que diz: 'É livre
a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa,
nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens'.
Portanto, tanto a abordagem, quando encaminhamento e atendimento só são
realizados mediante o consentimento das pessoas em situação de rua”.
A nota da prefeitura também informa que a pessoa em situação
de rua é acompanhada pelo Serviço Especializado em Abordagem Social, que
identifica, orienta e a encaminha aos serviços da rede, como o Centro de
Referência Especializado em Atendimento para Pessoas em Situação de Rua (Centro
Pop), Abrigo Noturno, Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e
Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS).
“Quando necessário, o Município aciona o Consultório de Rua,
que faz o encaminhamento desse público para os serviços de saúde, incluindo o
Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Outras Drogas (Caps AD)”, diz a nota.
De acordo com a Prefeitura, a cidade atende, hoje, cerca de
500 pessoas em situação de rua, sem contar com as que passam pelo município
como migrantes. Em 2022, foram atendidos 778 migrantes, que ficam nas ruas até
conseguir retornar às suas cidades de origem.
Vale e MP
Questionada sobre o papel da empresa na preservação e
manutenção da Praça da Estação; sobre a contrapartida do município na doação da
locomotiva; sobre a possibilidade da empresa reaver a Maria Fumaça para
restauração e exposição à população; e sobre a preocupação ou responsabilidade
com a segurança de passageiros e funcionários que precisam cruzar a praça para
chegar à Estação Ferroviária, a Vale se limitou a responder com a seguinte
nota:
‘A Vale realizou em 2012 a revitalização da Praça da
Estação, em Governador Valadares, em parceria com o município, responsável por
administrar o local. A empresa mantém diálogo constante com as autoridades em
relação à segurança da região’.
O Ministério também foi procurado para falar sobre a
fiscalização da situação dos patrimônios históricos de Governador Valadares e
também se há alguma atuação para que o patrimônio histórico da cidade seja
preservado, mas não houve resposta.







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