quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Patrimônio histórico, quase centenário, Maria Fumaça se transforma em abrigo para moradores em situação de rua em Governador Valadares

 Locomotiva foi doada pela Vale ao município em 1988 e está exposta na Praça da Estação desde 1996; tombamento aconteceu em 2001.

Por Fábio Monteiro — g1 Vales de Minas Gerais

 16/02/2023 08h05  Atualizado há 10 horas

 

Locomotiva se transforma em casa improvisada na Praça da Estação — Foto: Fábio Monteiro/Inter TV dos Vales

 

Quem chega a Governador Valadares, por qualquer uma de suas entradas, seja por terra ou pelo ar, tem, como boas vindas, a visão do maior cartão-postal da cidade: o Pico da Ibituruna. No entanto, quem pisa em solo valadarense, chegando pela Estrada de Ferro Vitória a Minas, é recepcionado por uma situação de abandono.

 

A Praça Dr. João Paulo Pinheiro, também chamada Praça da Estação, revitalizada por meio de uma parceria entre a Prefeitura Municipal e a Vale, atualmente é ocupada por pessoas em situação de rua e usuários de droga.

 

Em meio a isso, um patrimônio histórico da cidade, importante não só para o desenvolvimento da região, mas também para o Brasil, vem, há anos, sofrendo a ação de vândalos e tem se tornado uma moradia improvisada.

 


 Praça João Paulo Pinheiro (Praça da estação), em Governador Valadares — Foto: Fábio Monteiro/Inter TV dos Vales

 

Prestes a completar 100 anos de fabricação, a Maria Fumaça foi doada pela Vale ao município em 1988 e é uma das duas únicas locomotivas do tipo existentes no país. A outra está exposta, bem conservada e protegida, no Museu Ferroviário, em João Neiva (ES).

 

Em Governador Valadares, a Maria Fumaça foi colocada na Praça da Estação em 1996, onde virou atração para valadarenses e turistas que chegavam nas composições vindas de Vitória (ES) e de Belo Horizonte.

 

Em 2001, a locomotiva foi tombada como Patrimônio Histórico da cidade e, em 2003, foi repintada com as cores originais.

 

A partir da revitalização da Praça da Estação, em 2012, a Maria Fumaça passou a ser alvo, não só de cliques das máquinas fotográficas, mas também da ação de vândalos.

 

 

Além de receber pichações, o ponto turístico sofreu com a falta de manutenção. Pessoas em situação de rua e usuários de drogas passaram a usar a máquina como banheiro.

 

Os problemas surgidos com a praça, que acabou não servindo ao propósito da sua revitalização, a circulação de usuários de drogas e a ausência de uma intervenção do poder público afastaram a população em geral e deixaram todo o equipamento à mercê de vândalos.

 

O cenário atual da Praça da Estação é de barracas espalhadas, usuários de drogas, pessoas em situação de rua e uma Maria Fumaça que se transformou em moradia improvisada.

 


Locomotiva doada pela Vale ao município completa 100 anos em 2025 — Foto: Fábio Monteiro/Inter TV dos Vales

 

Início do desenvolvimento da região

 

Para o historiador Haruf Salmen Espindola, a Maria Fumaça simboliza o início do processo de desenvolvimento da região e foi fundamental, não só para ela, como para todo o estado de Minas Gerais e também para o Brasil.

 

Segundo ele, a estrada de ferro chegou à região por volta de 1910, quando foi inaugurada a primeira estação ferroviária na área entre o Fórum e a Praça dos Pioneiros.

 

Nesta época, conforme o historiador, o lugarejo, onde hoje é Governador Valadares, tinha cerca de 500 habitantes.

 

Cerca de 20 anos após a chegada da estrada de ferro, de acordo com Haruf, o assunto emancipação já começa a tomar forma até que, em 30 de janeiro de 1938, Governador Valadares é elevada à condição de município.

 

“Então, a Maria Fumaça simboliza tudo isso, a inclusão dessa região no processo de desenvolvimento econômico, social e histórico não só de Minas Gerais, mas também do Brasil”, explicou.

 

Outro fato lembrado pelo historiador foi a chegada da primeira ajuda médica à região por ocasião de um surto de febre amarela. “Foi a estrada de ferro que possibilitou essa ajuda”, afirmou.

 

Para Haruf, a deterioração e consequente perda de um patrimônio histórico significa também a perda de identidade e de pertencimento.

 

 

“Preservar o patrimônio é fortalecer a identidade, o pertencimento. É fortalecer a territorialidade. Estes são os principais ativos que servem de lastro para que o desenvolvimento ocorra. Sempre há uma preocupação grande com o turismo da cidade. Mas para isso, os moradores precisam ser turistas da sua própria cidade. Precisam gostar da cidade, ter o que ver, gostar de ver. Porque se a gente não for turista da nossa própria cidade, como vamos vendê-la para que ela possa ser visitada pelas pessoas de fora?”, conclui o historiador.

“Camboninha” tem “irmã gêmea” exposta em museu no ES

 


Locomotiva de João Neiva está exposta no Museu Ferroviário, como FC1, que na verdade é o nome da Maria Fumaça de Valadares — Foto: Museu Ferroviário de João Neiva

 

A Maria Fumaça foi fabricada em 1925, pela Rheinische Metall Waren und Machinen Fabrik, em Düsseldorf, na Alemanha.

 

 

De acordo com o pesquisador Harley Cândido, trata-se de uma locomotiva tanque, de pequeno porte, utilizada sobre trilhos com bitola estreita.

 

O nome da máquina, FC1, foi uma homenagem ao primeiro chefe de tráfego da Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM), Felippe Carpenter, que morreu em dezembro de 1911. Os antigos ferroviários da EFVM apelidaram a locomotiva de “Camboninha”.

 

Com quase cinco metros de comprimento, três de altura e dois de largura, a locomotiva fazia o transporte de dormentes de madeira, trilhos e das pessoas que trabalhavam na manutenção da ferrovia.

 

Segundo o pesquisador, a FC1 se revezava com outra máquina semelhante, batizada de FC2, nos serviços de construção da linha ou nas manobras na oficina de João Neiva (ES).

 

Em 1956, as duas locomotivas foram retiradas de operação e, em 1958, foram baixadas. A FC1 foi enviada a Governador Valadares e a FC2, entregue à Escola SENAI Ferroviária, de João Neiva, onde está exposta no Museu Ferroviário em perfeitas condições.

 


Registro da Felippe Carpenter 1 (FC1), a Maria Fumaça, feito em 1954 — Foto: Álbum de Locomotiva da EFVM

 

Em 1960, a Maria Fumaça é posta no pátio interno da Estação Ferroviária, em Governador Valadares, e em 1988, ela é doada, oficialmente, pela então Companhia Vale do Rio Doce ao município.

 

A locomotiva foi colocada, em 1996, como monumento na Praça da Estação, que acabara de passar por uma reforma.

 

O tombamento da Maria Fumaça como patrimônio histórico da cidade aconteceu em 2001. Em 2003, ela foi repintada nas cores originais e permaneceu exposta na praça.

 

Em janeiro de 2012, a Praça da Estação foi revitalizada por conta de uma parceria entre a Prefeitura Municipal e a Vale. Os investimentos foram de R$ 3,4 milhões.

 

No entanto, a promessa de um ambiente que proporcionaria à população mais opções de cultura e lazer acabou se transformando em uma grande dor de cabeça, principalmente para moradores e comerciantes locais.

 

A falta de segurança e iluminação precária acabou atraindo usuários de drogas e moradores em situação de rua.

 

Para Harley, a Maria Fumaça é peça fundamental na história da construção da EFVM. Ele lamenta a falta de interesse do poder público em preservar essa importante parte da história.

 

“O carinho que há pela locomotiva que está no Museu Ferroviário de João Neiva é tanto que eles tiraram a placa FC2 dela e colocaram FC1, como se ela fosse a primeira, sendo que a primeira é a que está em Valadares. Qualquer livro de ferrovia comprova isso. Fizeram de propósito porque a de lá está muito bem preservada e a daqui está nessas condições”, explica o pesquisador.

 

Harley lembra ainda que o município de Governador Valadares já perdeu um patrimônio histórico. A venda do seu Margarido era uma propriedade antiga localizada na rua Sá Carvalho, Centro da cidade, que chegou a ser tombada mas teve o ato revogado em 2005. A falta de preservação deteriorou a construção que acabou cedendo com o tempo.

 

“Na grande maioria das vezes, os patrimônios históricos são bens não fungíveis (que não podem ser substituídos). A partir do momento em que você perde, não tem como repor. É como a venda do seu Margarido. Se você quiser fazer outra, vai fazer uma nova. Mas ela não será mais a venda do seu Margarido. E assim pode acontecer com a Maria Fumaça”, alerta ele.

 

Harley lamenta também o atual estado da locomotiva da Praça da Estação. Segundo ele, com a perda do patrimônio histórico, a cidade perde também sua história e o seu respeito às futuras gerações.

 

“Eu acho que isso é o ponto chave. Uma cidade sem raízes não tem história. E, aqui, o que menos se preserva é a história”, conclui.

Imagem aérea da Praça da Estação com moradias improvisadas — Foto: Fábio Monteiro/Inter TV dos Vales

  

Problema social x preservação do patrimônio

 

Para historiadora Sandra Nicoli, mestre em gestão integrada do território e integrante do Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural desde 2018, a discussão da preservação da Maria Fumaça extrapola a questão do patrimônio cultural e envolve outros conselhos e secretarias.

 

O problema social detectado por qualquer pessoa que chegue à cidade pela Praça da Estação ou que transite por ela, seja qual for o destino, é manifesto.

 

“Uma população que chegou àquele local, se apropriou e está lá. Ali há um problema social, de fato. É triste ver também que, antes dessa população estar ali e permanecer ali, também havia um certo descuido tanto da gestão municipal, na questão de investir ali, na questão da preservação, da proteção, do zelo, quanto da população que também estava passando, visitando. Não é, de fato, um problema somente da população que está residente na praça neste momento”, diz a historiadora.

Sandra explica que, desde antes dela integrar o Conselho, já havia discussões sobre a preservação da Maria Fumaça.

 

Segundo ela, os debates, no sentido da preservação do patrimônio em si, focavam na proteção da locomotiva, da ferragem, dos parafusos, da tintura e de tudo que envolvia a máquina.

 


 Patrimônio tombado de Governador Valadares — Foto: Fábio Monteiro/Inter TV dos Vales

 

Documento de doação

 

Para Sandra, é importante que se encontre o termo de doação da Maria Fumaça pela então Companhia Vale do Rio Doce, atual Vale, à prefeitura de Governador Valadares.

 

Segundo a historiadora, o documento é importante para que se conheça todos os itens doados e as contrapartidas das partes envolvidas e, assim, saber quais são as obrigações do município e até da própria Vale.

 

“Esse documento pode nos fortalecer enquanto Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural, enquanto sociedade e enquanto gestão municipal”, diz Sandra.

 

Prefeitura diz que vai restaurar Maria Fumaça

 

Procurada pelo g1, a prefeitura de Governador Valadares informou que a Secretaria Municipal de Cultura, Esporte, Lazer e Turismo iniciou processo de licitação para restauração completa da Maria Fumaça.

 

 

Os recursos seriam provenientes do Fundo Municipal de Proteção ao Patrimônio Histórico e Cultural. Por meio de nota, o município diz que, após a reforma, serão discutidas com o Conselho de Patrimônio Histórico e Cultural sobre “o cercamento do local, a exemplo do que acontece em Teófilo Otoni, ou o encaminhamento da Maria Fumaça para o seu local de origem: a antiga estação ferroviária, próximo à Praça dos Pioneiros”.

 

Sobre a Praça da Estação, a prefeitura informou que atua rotineiramente na manutenção dos espaços públicos, “mas, infelizmente, a conservação desses espaços também depende da população”.

 

O município explica ainda, na nota, que “todo encaminhamento realizado pela Secretaria Municipal de Assistência Social é realizado com base na Constituição Federal de 1988, que assegura o direito ao acesso a serviços públicos de assistência social e saúde, além do art. 5º, XV, que diz: 'É livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens'. Portanto, tanto a abordagem, quando encaminhamento e atendimento só são realizados mediante o consentimento das pessoas em situação de rua”.

 

A nota da prefeitura também informa que a pessoa em situação de rua é acompanhada pelo Serviço Especializado em Abordagem Social, que identifica, orienta e a encaminha aos serviços da rede, como o Centro de Referência Especializado em Atendimento para Pessoas em Situação de Rua (Centro Pop), Abrigo Noturno, Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS).

 

 

“Quando necessário, o Município aciona o Consultório de Rua, que faz o encaminhamento desse público para os serviços de saúde, incluindo o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Outras Drogas (Caps AD)”, diz a nota.

 

De acordo com a Prefeitura, a cidade atende, hoje, cerca de 500 pessoas em situação de rua, sem contar com as que passam pelo município como migrantes. Em 2022, foram atendidos 778 migrantes, que ficam nas ruas até conseguir retornar às suas cidades de origem.

 

Vale e MP

 

Questionada sobre o papel da empresa na preservação e manutenção da Praça da Estação; sobre a contrapartida do município na doação da locomotiva; sobre a possibilidade da empresa reaver a Maria Fumaça para restauração e exposição à população; e sobre a preocupação ou responsabilidade com a segurança de passageiros e funcionários que precisam cruzar a praça para chegar à Estação Ferroviária, a Vale se limitou a responder com a seguinte nota:

 

‘A Vale realizou em 2012 a revitalização da Praça da Estação, em Governador Valadares, em parceria com o município, responsável por administrar o local. A empresa mantém diálogo constante com as autoridades em relação à segurança da região’.

 

O Ministério também foi procurado para falar sobre a fiscalização da situação dos patrimônios históricos de Governador Valadares e também se há alguma atuação para que o patrimônio histórico da cidade seja preservado, mas não houve resposta.

https://g1.globo.com/mg/vales-mg/noticia/2023/02/16/patrimonio-historico-quase-centenario-maria-fumaca-se-transforma-em-abrigo-para-moradores-em-situacao-de-rua-em-governador-valadares.ghtml

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