Ponta de Areia (BA), Teófilo Otoni (MG) e Araçuaí (MG) – Os verdes olhos de Glair Farina, de 71 anos, enxergam o passado toda vez que o ex-ferroviário observa, incrédulo, “o descanso para sempre” da Pochixá, exposta na Praça Tiradentes, em Teófilo Otoni, a 450 quilômetros de Belo Horizonte.
A maria-fumaça é um dos poucos símbolos que restaram da Bahia-Minas, a ferrovia aberta para levar o milagre econômico ao Vale do Jequitinhonha e a um pedaço do Sul da Bahia, duas das regiões mais carentes do Brasil.

A Baiminas, como moradores se referem à linha, foi inaugurada em 1881 e desativada em 1966. Seus 578 quilômetros ligaram o Jequitinhonha ao Atlântico, de Araçuaí a Ponta de Areia, onde os trilhos desembocavam num porto que recebia navios da costa do Sudeste. O sertão se tornou parceiro comercial de grandes centros. Mas não foi só por isso que a ferrovia se tornou um marco na economia.

À medida que os trilhos avançavam, povoados e cidades eram fundados. Foi assim que a ferrovia atraiu aportes, fomentou a geração de empregos e estimulou o plantio em terras até então inóspitas. O progresso puxado pela maria-fumaça é descrito por vários pesquisadores. Jaime Gomes, autor de Um trem passou em minha vida, destacou que “milhares de pessoas se deslocaram para aquela região. (…) Montaram engenhos, serrarias e olarias; fundaram vilas, povoados e até cidades. Parte do Sul baiano e do Nordeste mineiro prosperaram, milagrosamente”.

O avanço econômico é mostrado em números. De 1935 a 1944, por exemplo, o volume nos vagões de carga passou de 76.874 toneladas para 174.161 toneladas (aumento de 126%). O total de passageiros subiu em escala maior num período menor, de 51,3 mil pessoas em 1935 para 373 mil homens e mulheres em 1940 (acréscimo de 627%).
Mas a má gestão, a corrupção e a precipitada decisão do governo militar de apostar no avanço das rodovias, em detrimento das estradas de ferro, decretaram o fim da linha. Em muitas cidades e povoados o progresso foi embora.
De uma ponta a outra: A viagem que virou música

Sete anos depois de a ferrovia ser desativada, Fernando Brant (1946-2015) percorreu o trecho para uma reportagem publicada na revista O Cruzeiro. O antes e o depois da Baiminas inspiraram o parceiro de Milton Nascimento a compor Ponta de Areia, nome do distrito Caravelense, ponto final da linha, no Sul baiano.

Brant reparou o quanto praças ficaram vazias sem as locomotivas e os vagões. E lamentou o destino de velhos maquinistas. Os versos soam como saudade aos mais antigos: “Ponta de Areia, ponto final/ Da Bahia-Minas, estrada natural/ Que ligava Minas ao porto, ao mar/ Caminho de ferro mandaram arrancar/ Velho maquinista com seu boné/ Lembra do povo alegre que vinha cortejar/ Maria-fumaça não canta mais/ Para moças flores janelas e quintais/ Na praça vazia, um grito, um ai/ Casas esquecidas, viúvas nos portais”.
Linha do Tempo
1880 – Em 26 de agosto, é sancionada a lei imperial que autoriza a construção da Estrada de Ferro Bahia e Minas
1881 – Em 16 de maio, é fixado o primeiro trilho da ferrovia, em Caravelas
1882 –Em 9 de outubro, é feita a primeira viagem num trecho ferroviário entre Minas e Bahia
1882 –Em 9 de novembro, a ferrovia é inaugurada, estando concluído o trecho entre Caravelas e Serra dos Aimorés (MG)
1885 – Crise financeira e falta de dinheiro para pagar empreiteiras interrompem a construção da ferrovia até Teófilo Otoni
1898 – Em 3 de maio, é inaugurada a estação de Teófilo Otoni
1910 – Governo de Minas vende acervo da ferrovia para implementar comércio e indústria na região
1966 – Estrada de Ferro Bahia e Minas deixa de funcionar
2012 – Justiça manda Prefeitura de Araçuaí retirar famílias que ocupam duas estações e preservar os imóveis
*Colaboração/Rony Kely Marques Historiador
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