sexta-feira, 28 de outubro de 2022

“Matar e quebrar urnas”: evangélico líder de motociata incentiva crimes no Telegram

Áudios de Jackson Villar foram gravados no grupo Nova Direita, investigado pelo TSE por difundir desinformação

27 de outubro de 2022
Por Thiago Domenici

Seus grupos somam mais de 225 mil membros 
Villar defende “quebrar esquerdistas no cacete”



Tão logo terminou a contagem de votos do primeiro turno em 2 de outubro, um grupo de extrema direita no Telegram chamado “Nova Direita 70 milhões”, com 182 mil membros, começou uma articulação sobre como atuar para reverter uma possível vitória de Lula no segundo turno.

Parte das conversas realizadas em chats do Telegram entre os dias 3 e 23 de outubro foi gravada por uma fonte que pediu para não ser identificada. Nas gravações analisadas pela Agência Pública, destaca-se Jackson Villar da Silva, evangélico que se intitula comerciante, radialista, conservador, presidente do “Acelera Para Cristo” e organizador da motociata com o presidente Jair Bolsonaro em junho de 2021, quando reuniu motociclistas em um percurso de 130 km que partiu de São Paulo até Americana, no interior.

Da zona sul de São Paulo, Villar costuma descrever o evento como “a maior motociata do mundo” — o que gerou uma investigação do Ministério Público Estadual por ter ocorrido sem segurança sanitária, durante a pandemia. O evento teria custado aos cofres públicos R$ 1 milhão, envolvendo 1.900 PMs e três helicópteros. À época, Bolsonaro disse que a motociata serviria para “enaltecer os valores da família, o patriotismo e em parte para defender o governo”.

As gravações

Gravação obtida pela reportagem mostra Villar defendendo violência durante período eleitoral

Ao longo dos registros obtidos pela reportagem, Villar propõe uma espécie de “eleição paralela”, em que diz que vai provar “fraude nas urnas”. “Só não pode falar que vai provar a fraude. Se falar isso aí os caras vão derrubar o canal. Tem que ser uma coisa sutil, com sabedoria, entendeu?”, diz nos chats.

Mas Villar vai além em suas declarações. Ele insinua a necessidade de cometer crimes diante do cenário desfavorável ao seu candidato, Jair Bolsonaro. Ele fala, por exemplo, sobre a necessidade de “quebrar esquerdistas no cacete”, conclama seus seguidores a “quebrar a urna eletrônica no pau” e afirma que “cientista político tem que apanhar”.

Em certo momento, em resposta a Villar, que havia sugerido quebrar as urnas, um dos participantes, que se identificou como pastor Wellington Fontes, de Rondônia, diz que depredar o patrimônio público configura o cometimento de um crime. “A gente tem que tomar cuidado”, diz o pastor. Villar se contradiz ao responder a ele. “Você desculpa, mas cê tá errado pastor. E ninguém está falando aqui em quebrar nada, depredar nada, não. Acabar é eliminar de uma vez por todas a urna. Essa urna eletrônica ninguém acredita muito.”

Villar cometeu também discriminação e preconceito contra o povo baiano, a quem se referiu como “descarados e vagabundos” por terem votado em sua maioria no candidato petista — Lula obteve 67% dos votos contra 24% do candidato do PL no estado. “Baiano é gente boa, mas ele é meio descarado. É falso. Eu conheço a natureza do baiano, o negócio dele é se requebrar”, diz o empresário, que já foi cantor gospel.

As falas violentas de Villar sugerem ainda a um bolsonarista como lidar com quem vota em Lula: “Você tem que falar assim: ‘Os cara vão te ‘passar’ [expressão para matar], os cara vão caçar todo mundo que é petista. Você vai convencer uma alma sebosa com o medo, entendeu? Ele só respeita o cacete’.

Procurado pela reportagem, Jackson Villar não retornou até a publicação.

Caso Roberto Jefferson

Já no último final de semana, Villar se revoltou com o episódio da resistência à prisão de Roberto Jefferson, presidente licenciado do PTB, que atirou com fuzil e jogou granadas em policiais federais.

Mas a revolta era contra Alexandre de Moraes (STF), que ordenou a prisão de Jefferson por infringir diversas vezes as condições estipuladas para a sua prisão domiciliar. Villar pediu aos berros em um áudio que seus seguidores no Rio de Janeiro fossem defender Jefferson na frente de sua casa: “Tem que mandar prender o Xandão”. “Eu quero ver petista preso, quero ver Xandão na cadeia, esse filho da puta na cadeia”, esbravejou.

Diante da situação, outro membro do grupo que não pôde ser identificado pela reportagem ameaçou depois de ter ouvido Villar dizer que o “Exército tem que prender os policiais federais”: “A vontade que eu tenho é de meter bala na cabeça do Xandão, só não tive oportunidade ainda”. Villar responde: “Se matarem o Roberto Jefferson, isso vai respingar no Bolsonaro violentamente”.

Villar, que usa constantemente o verniz religioso em suas mensagens, já exaltou a ditadura militar em suas redes, que somam mais de 500 mil seguidores. Nelas, ele já divulgou um vídeo em que fala em “derramamento de sangue indígena”, situação que fez a Polícia Federal abrir um inquérito “para apurar possível prática de crime de ameaça a indígenas”.

Durante as reuniões nos chats do Telegram, Villar afirma ser próximo a Bolsonaro e de membros do governo. “Quando chegar a um milhão no grupo vou chamar o Tarcísio, vou chamar Bolsonaro. Isso vai virar uma onda pras pessoas entrarem nesse canal. Eu tenho acesso a eles, eu tenho o zap deles aqui, do Eduardo [Bolsonaro], todo mundo.”

Foi durante a motociata organizada por ele no ano passado que o empresário gravou vídeos com Tarcísio Gomes de Freitas e Ricardo Salles, que naquele momento ainda eram ministros do governo Bolsonaro (Infraestrutura e Meio Ambiente, respectivamente).

À esquerda Tarcísio de Freitas, um homem branco com cabelos grisalhos, na imagem ele aparece com uma bandeira amarela amarrada no pescoço, à sua direita está Jackson Villar da Silva, um homem branco, com cabelos e barba pretos, ele usa uma camiseta em apoio à Jair Bolsonaro assim como o homem ao seu lado, e à esquerda o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles.
Villar ao lado de Tarcísio Freitas e Ricardo Salles durante motociata em 2021

Ele posou ao lado do próprio presidente, a quem já teve que pedir desculpas aos prantos, após criticá-lo nas manifestações de 7 de Setembro de 2021, quando Bolsonaro escreveu um comunicado dizendo que não tinha intenção de “agredir quaisquer dos Poderes” da República. “Eu não acredito em Bolsonaro mais, pode me chamar de traidor, do que quiser”, falou na ocasião. As mágoas, no entanto, teriam ficado no passado.

Hoje, Villar administra ao menos quatro grupos no Telegram favoráveis ao presidente: “70 Milhões eu voto em Bolsonaro Nova Direita”, com 182 mil membros; “70 Milhões 2 voto no Bolsonaro Nova Direita”, com 22 mil membros; Canal Nova Direita #70Milhões #OBrasilemBrasília, com 20 mil membros e “Carta do Bolsonaro”, com pouco mais de 1.700 membros. No total, seus grupos somam mais de 225 mil membros.

Flyer de motociata que teve como organizador, Jackson.
Próximo a Bolsonaro, Villar organizou motociata com o presidente em junho passado

Gabinete do ódio

Em 2018, Villar já havia tentado vaga como deputado federal pelo PROS, mas não se elegeu — o PROS estava coligado com o PT na ocasião. Nestas eleições, o empresário evangélico tentou novamente concorrer a uma vaga de deputado federal pelo partido Republicanos. Ele angariou apoio nas redes da senadora eleita Damares Alves, gravou propaganda eleitoral ao lado do candidato ao governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas, mas teve a pré-candidatura impugnada pela Justiça Eleitoral.

Na imagem, Tarcísio de Freitas (à esq) e Jackson Villar (à dir).
Tarcísio apoiou pré-candidatura de Villar neste pleito

Nas redes, ele diz que o PT foi o culpado pela impugnação de sua campanha. “O PT impugnou minha campanha com acusações falsas! Mas a gente não se deu por derrotado! Vamos pra cima deles com mais força ainda!”. Mas, segundo o Tribunal Regional Eleitoral (TRE), ele teve o registro indeferido a pedido do Ministério Público Estadual por não apresentar certidões e declarações necessárias ao processo de candidatura e por omissão na prestação de contas das eleições de 2018.

Hoje, o canal de Villar no Telegram com mais membros está entre os 81 citados na decisão em caráter liminar proferida pelo corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Benedito Gonçalves, no último dia 18 de outubro.

É a mesma decisão que abriu investigação para apurar a existência de uma suposta “rede de produção de desinformação”. Gonçalves citou indícios de uma atuação “massificada” para disseminar fake news contra o candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O próprio ministro Alexandre de Moraes, que preside o TSE, afirmou sobre a decisão que “as medidas dizem respeito a duas dúzias de pessoas que vêm sendo investigadas há três anos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) exatamente porque fazem isso. Porque montaram um chamado ‘gabinete do ódio’”.

Ao saber do ocorrido, ainda no dia 18 de outubro, Villar passou a convocar seus seguidores para um novo grupo do Telegram. “Novo grupo… da Nova Direita, TSE está tentando derrubar o nosso canal. Entre nesse link agora antes que derrubem nosso grupo.” E reforçou: “TSE está tentando nos calar, quer derrubar nosso canal. Estamos no caminho certo”.

Jackson Villar e Bolsonaro durante Motociata em 2021, Jair fala ao microfone enquanto gesticula.
Villar coordena grupos no Telegram que somam mais de 225 mil integrantes

Voto impresso

O “caminho certo”, na avaliação de Villar, está centrado na tentativa de reunir “70 milhões de patriotas que votaram em Bolsonaro” no grupo do Telegram. “E aí Deus que inspirou hoje de manhã [4 de outubro] no canal porque lá é infinito duzentas mil, o canal é infinito, lá cabe setenta milhões. Então vamos botar todo mundo do canal e eu vou entregar pro presidente o canal”, prometeu.

Villar tem um parceiro na empreitada, a quem chama de “secretário”. É o pastor Guilherme Lessa, que já foi candidato à prefeitura de Belém (PA) em 2020, pelo Partido Trabalhista Cristão (PTC), e candidato não eleito a deputado federal em 2018. Há duas semanas eles estão colhendo assinaturas para o que chamam de “Manifesto popular de vontade própria do povo brasileiro em apoio ao presidente Bolsonaro candidato à reeleição”.

Ambos organizaram um evento em Brasília nos dias 15 e 16 de outubro, que também contou com uma motociata na capital federal — essa sem a presença de Bolsonaro —, onde fizeram coleta de assinaturas a favor do voto impresso. No dia 23 de outubro, em frente à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), em São Paulo, também houve coleta de assinaturas.

Na avaliação de ambos em mensagens nos grupos, colocar 70 milhões de usuários no Telegram e colher assinaturas de eleitores que teriam votado em Bolsonaro no primeiro turno é o caminho que provaria que as urnas não são confiáveis, uma linha narrativa criada pelo próprio presidente da República refutada como mentirosa diversas vezes. Nesta semana, novamente, Bolsonaro afirmou que “é impossível dar selo de credibilidade” ao sistema.

O TSE disponibilizou nestas eleições uma página sobre notícias falsas relacionadas à urna eletrônica. Segundo diversos especialistas e auditores, a Justiça Eleitoral utiliza o que há de mais moderno em termos de segurança da informação para garantir a integridade, a autenticidade e o sigilo do voto.


                                                                              


 

 ÁUDIO: PRESIDENTE DA BRITÂNIA INSTIGA FUNCIONÁRIOS A VOTAREM EM BOLSONARO: ‘SÓ UMA LEMBRANÇA PARA VOCÊS’

Após afirmar em discurso que ‘nosso país não é vermelho’, César Buffara distribuiu camisas verde e amarelas para funcionários vestirem na eleição.


27 de Outubro de 2022, 21h16


NO FIM DO EXPEDIENTE de 21 de outubro, funcionários da loja matriz da Britânia tiveram uma reunião inesperada com o presidente da empresa de eletrodomésticos, César Buffara. O recado, gravado em um áudio que o Intercept recebeu com exclusividade, era claro. “Dia 30 está aí. Nosso país é verde e amarelo, nosso país não é vermelho. Lembrar a vocês que não deu certo em lugar nenhum do mundo o vermelho. Só uma lembrança para vocês”, alardeou Buffara aos funcionários em Curitiba.

Após o breve discurso, que durou cerca de um minuto, o patrão entregou aos funcionários uma camisa verde e amarela, com o desenho da bandeira nacional e a frase “O Brasil que queremos ser só depende de nós”. Segundo Buffara, o presente é “para vocês usarem, quem quiser usar, no dia da votação. Respeito cada um de vocês, mas vim dizer que nosso país é verde e amarelo, tá bom?”. A informação desta reunião foi publicada também pelo Plural Jor, nesta quinta-feira, 27.

Alguns funcionários denunciaram a empresa por assédio eleitoral, de forma anônima, ao sindicato que representa os trabalhadores do setor, o Setrolar, e à Procuradoria Regional do Trabalho de Curitiba, que instaurou um inquérito civil em 25 de outubro para “elucidar os fatos noticiados”.

Falei com três funcionários da empresa que confirmaram a existência da reunião. Eles pediram para eu não identificá-los, por medo de demissão. Dois deles afirmaram que a voz no áudio é, sim, de Buffara. A presença dele surpreendeu os trabalhadores, que não costumam vê-lo circulando entre os setores da loja matriz. “Eu só o vi umas duas vezes”, me disse um dos funcionários.

Segundo os trabalhadores com quem conversei, cerca de 60 pessoas de ao menos quatro setores foram chamadas para o encontro. A filha do presidente e diretora de marketing, Ana Buffara, também estava presente, assim como gerentes e supervisores. “Antes de o presidente chegar, os chefes já sabiam o que estava por vir. Alguns alertaram para cuidar da forma como iríamos reagir”, disse um funcionário, que contou ter se sentido coagido. “Se eu aparecer de blusa vermelha agora, vou ser mandado embora?”, se questionou. Outro funcionário me disse que também se sentiu constrangido e que seus colegas temem denunciar ou mesmo demonstrar descontentamento, por medo de serem demitidos.

A camisa distribuída por César Buffara a seus funcionários na matriz da Britânia em Curitiba.

A camisa que César Buffara distribuiu a seus funcionários na matriz da Britânia em Curitiba.

Consolidada como uma das principais empresas no segmento de eletroportáteis, a Britânia está presente em Curitiba e Maringá, municípios do Paraná, em Joinville, em Santa Catarina, em São Paulo (capital), Linhares, no Espírito Santos, e Manaus, capital do Amazonas.

Essa foi a segunda vez este ano que a empresa orientou o voto aos seus funcionários no Paraná. No primeiro turno, uma comunicação interna com o assunto “Eleições 2022″ foi enviada por e-mail, com o nome e o número do candidato a deputado federal Stephanes, do PSD. “Como empresa, a Britânia estimula seus colaboradores a participarem desse momento decisivo na vida de todos os paranaenses”, dizia parte do texto que apresentava o candidato. Ele não foi eleito.

Comunicado enviado aos funcionários da Britânia "apresentava" candidato a deputado.

Comunicado enviado aos funcionários da Britânia “apresentava” candidato a deputado.

Procurada por meio da assessoria de imprensa para se pronunciar a respeito das denúncias de assédio eleitoral, a empresa afirmou apenas que “não comenta assuntos políticos”.

Até o dia 27 de outubro, a Procuradoria Regional do Trabalho do Paraná recebeu 205 denúncias envolvendo 151 empresas. O estado está entre os 10 com maior taxa de registros de assédio eleitoral no Ministério Público do Trabalho. Foram 6,9 denúncias para cada 100 mil trabalhadores formais – acima da taxa nacional, de 4,3. O estado que lidera é Tocantins – 23 denúncias para cada 100 mil trabalhadores formais. O segundo é a Paraíba, com 11,9 e o terceiro Alagoas, com 11,6 – sua capital, Maceió, foi a única do Nordeste que deu maioria de votos a Bolsonaro no primeiro turno. Dos 10 estados com maior taxa de denúncias, cinco ficam na região Nordeste.

O MPT já registrou um aumento de mais de 770% no número de denúncias de assédio eleitoral este ano, com relação a 2018. Foram 1.850 casos envolvendo 1.440 empresas.

https://theintercept.com/2022/10/27/britania-instiga-funcionarios-a-votarem-em-bolsonaro/

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