
Da Redação
Se alguém ainda tinha mínima dúvida sobre a força do racismo estrutural no Paraná, o que aconteceu com Carol Dartora no último final de semana liquidou essa falsa ilusão.
Feminista, doutoranda em Educação, militante das causas populares, é a primeira vereadora (PT) negra da cidade de Curitiba (PR).
Elegeu-se com 8.874 mil votos.
No sábado passado, 05/12, o prefeito reeleito Rafael Greca (DEM) comentou a eleição de Carol em entrevista à jornalista Andréia Sadi, no programa Em Foco, da GloboNews.
Greca disse que discorda da afirmação da vereadora de que existe racismo estrutural na capital do Paraná.
No twitter, @caroldartora13 comentou:
Como ele explica Curitiba ter eleito uma mulher negra apenas em 2020? Considera isso normal!? Não tinha expectativas muito altas em relação à sua recondução ao mandato, porém exijo respeito!
Greca disse que não existe racismo estrutural e que até conviveu com Enedina Alves (veja PS do Viomundo).
É um absurdo o prefeito de uma capital tão desigual, que revela sua segregação racial tão nitidamente, promover esse discurso que invisibiliza nossa luta. #ExisteRacismoEmCuritibaSim
Depois dessa fala do Greca, estou me perguntando se realmente nasci em Curitiba ou perto da linha do equador.
Tudo uma questão de determinismo geográfico!
No domingo, 06/12, menos de 24 horas após a entrevista, Carol Dartora foi às redes sociais denunciar:
URGENTE
Acabo de receber ameaças de morte [abaixo, a íntegra da mensagem].
As autoridades ja foram contatadas e todas as providências estão sendo tomadas para que seja garantida minha segurança e da minha equipe.

O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil — seção Paraná (OAB-PR), Cássio Teles, se manifestou a respeito.
Em entrevista ao Meio Dia Paraná, da RPC, classificou a ameaça de morte sofrida por Carol Dartora, como “manifestação inoportuna e inconveniente que está na contramão de tudo aquilo que a sociedade brasileira vem buscando que é a igualdade e a não discriminação”.
Confira no vídeo abaixo:
A OAB-PR publicou também em seu portal uma nota (veja abaixo).
Na verdade, foi a manifestação que presidente Cássio Teles leu no Meio Dia Paraná.


Em nota, o Coletivo Advogadas e Advogados pela Democracia (CAAD) condenou a relativização do crime de racismo, contida na declaração do presidente da OAB/PR:
Como advogado que é, e, mais importante, na representação estadual de todas as advogadas e advogados do Paraná, o Presidente Cássio Telles tem o dever de saber que, o que ele chama de “manifestação inoportuna e inconveniente” é, na verdade, uma somatória de crimes tipificados em Lei.
Abaixo, a íntegra da nota pública do CAAD.
POR UMA POSTURA FIRME CONTRA O TERRORISMO NAZIFASCISTA
Nota Pública do Coletivo Advogadas e Advogados pela Democracia
O Presidente da OAB/PR, Cássio Teles, em entrevista ao jornal Meio Dia Paraná, da RPC, classificou a ameaça de morte sofrida pela primeira vereadora negra eleita em Curitiba, Carol Dartora, como “manifestação inoportuna e inconveniente que está na contramão de tudo aquilo que a sociedade brasileira vem buscando que é a igualdade e a não discriminação.”
Como advogado que é, e, mais importante, na representação estadual de todas as advogadas e advogados do Paraná, o Presidente Cássio Telles tem o dever de saber que, o que ele chama de “manifestação inoportuna e inconveniente” é, na verdade, uma somatória de crimes tipificados em Lei.
O Coletivo Advogadas e Advogados pela Democracia vem a público manifestar sua contrariedade à relativização do crime de racismo, contida na declaração do Presidente da OAB/PR.
Além disso, as ameaças racistas e de ódio, recebidas pela vereadora eleita Carol Dartora, são as mesmas recebidas pelas também vereadoras eleitas Ana Lucia Martins, de Joinville, Duda Salabert (mulher trans), de Belo Horizonte, e pela prefeita eleita de Bauru, Suellen Rosim.
Já é sabido, também, que o modo de operar, inclusive imputando terceira pessoa, também alvo de crime de ódio, como subscritora das ameaças, é o mesmo da quadrilha do Dogolachan, da qual a Professora da UFC Lola Aronovich já foi vítima, em caso que teve vários desdobramentos.
Conclui-se, portanto, diante das recorrentes ameaças perpetradas, tratar-se de uma ação orquestrada por grupos nazifascistas, que, para além dos crimes pontuais, empreendem tentativas de desestabilização da frágil democracia brasileira.
Por tais razões, o CAAD expressa apoio e solidariedade as parlamentares Carol Dartora, Ana Lucia Martins, Duda Salabert e Suellen Rosim, manifestando profunda preocupação com a tibieza da OAB/PR diante de fatos tão graves, que colocam em perigo a incolumidade física das parlamentares eleitas e dissemina o medo e o terror junto à sociedade.
Brasil, 07/11/2020.
Coletivo Advogadas e Advogados pela Democracia.
PS do Viomundo: Enedina Alves Marques (1913-1981) foi a primeira mulher a se formar em engenharia no estado do Paraná e a primeira engenheira negra do Brasil. Filha de um casal de negros provenientes do êxodo rural após a abolição da escravatura em 1888, Enedina formou-se em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Paraná, em 1945.

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