Iniciativa tocada por um jornalista e um artista atua na representação do povo preto nos bairros cariocas

São várias questões que envolvem que a gente acaba se tornando um 'artevista'
Você sabe qual é o significado do nome da rua em que mora ou frequenta? Alguns nomes como Humaitá ou Riachuelo fazem referências a características geográficas. Mas a maioria dos logradouros no Brasil possuem o nome de homens, sendo em sua maior parte militares, políticos ou aristocratas.
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Segundo um levantamento do Jornal Folha de São Paulo, na capital paulista só 16% das ruas possuem nomes femininos. A tendência se repete em outras metrópoles brasileiras, como Maceió e Rio de Janeiro.
A questão racial na representatividade dos espaços públicos também merece destaque na opinião do jornalista Pedro Rajão. Ele afirma que poucas ruas na capital carioca levam o nome de pessoas pretas, por exemplo.

O mural de Marielle Franco pintado em 2018 e reformado em 2019 / Negro Muro/Pedro Rajão
O túnel Rebouças é uma das exceções dessa tendência na cidade. O nome faz homenagem a André e Antônio Rebouças, ambos engenheiros negros de muito destaque no Brasil durante o Segundo Reinado.
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Por outro lado, para ampliar a representatividade negra nos espaços urbanos, Pedro Rajão toca o projeto Negro Muro há uma década, utilizando a arte da grafitagem.
"Os nossos bairros, os nossos nomes de ruas, os grandes monumentos, estátuas, são para generais, comandantes, viscondes e duques, príncipes e princesas brancos. Muitas vezes grandes genocidas, como Duque de Caxias, que leva o nome de um município do Rio de Janeiro”, afirma.
O projeto é feito ao lado do artista Cazé, contornando e colorindo a importância de personalidades negras nas ruas cariocas. A primeira grafitada da dupla foi para representar o músico nigeriano Fela Kuti.
Why black man dey suffer today?
Why black man no get money today?
Um trecho da música "Why they black man suffer today" do multi-instrumentista de Afrobeat questiona: “Por que o homem negro sofre hoje em dia? Por que o homem negro não ganha dinheiro hoje em dia?”. A letra adentra o racismo estrutural por trás das desigualdades entre brancos e negros.

Maestro Moacir Santos / Negro Muro/Pedro Rajão
O passo seguinte do Negro Muro foi escolher a representação de personalidades dos próprios territórios cariocas.
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Cazé destaca que o trabalho além de reforçar a negritude pelos bairros, favorece uma memória social dos territórios.
“A gente acaba trabalhando como arte-educador porque ao longo do processo do fazer artístico, o Pedro tá contextualizando aquela figura para aquele território que muitas vezes desconhece a existência daquela pessoa”, explica.
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Foi assim que, por exemplo, a Mãe Beata de Iemanjá passou a dar vida aos muros da Rua Riachuelo, em uma pintura de 5 metros de altura. E o sambista, Cartola, voltou para o bairro da Lapa, juntando cores e formas ao eco das vozes e melodias.

Antônio Carlos Bernardes Gomes, mais conhecido como Mussum / Negro Muro/Pedro Rajão
Outros exemplos de artes representadas pelo projeto são da vereadora Marielle Franco, Abdias do Nascimento, Lima Barreto e a sambista Clementina de Jesus.
O projeto também incentiva uma apropriação da temática das artes representadas nos muros. As grafitagens contam com QR Codes que linkam para conteúdos com mais informações sobre a personalidade retratada.
“O ato de estar juntando isso para construir uma reparação social, levando informação, tentando combater o racismo, são várias questões que envolvem que a gente acaba se tornando um artevista”, ressalta Cazé.
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O projeto conta com financiamento coletivo para se manter de pé. As contribuições podem ser feitas pelo site vakinha virtual digitando “Projeto Negro Muro”.
Os recursos captados através do último financiamento vai resultar, em breve, em graffitis com o líder da Revolta da Chibata João Cândido, o poeta Cruz e Sousa e a cantora Elza Soares.
*Adrielly Marcelino teve supervisão de Daniel Lamir
Edição: Daniel Lamir
Negro Muro: projeto faz grafitagem de | Podcast | Rádio Brasil de Fato
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