Nos últimos dois anos, cinco quilombolas foram assassinados no povoado de Cedro, mas ninguém foi punido
Questões agrárias
Thallys Braga
|11 fev 2022_16h36
Seu Quiqui transformou o fundo do quintal em um paraíso. No
punhado de terra que herdou de seus familiares, ex-escravizados fugidos de
engenhos do Maranhão, o quilombola de 57 anos plantou macaxeira e pés de manga,
graviola, cupuaçu, laranja-lima, café e limão. “Se eu não conseguir colher tudo
dessa roça, um dia meus netos irão”, costumava dizer, satisfeito.
No vilarejo onde vivia, batizado de Cedro, os moradores
preparam a comida em fogareiros de carvão. Para evitar que a fumaça tomasse
conta de sua casa, Quiqui instalou o dele num casebre de tábua, revestido com
telha de fibrocimento e construído no quintal, perto da roça. A edificação não
é perfeita: tem colunas tortas e feixes de madeira por onde quem está fora
consegue ver o que se passa dentro. Como o quilombola não instalou uma rede de
iluminação nos arredores, o lugar fica um breu à noite. Por isso, seus
familiares aproveitam o dia para fazer as refeições. Quando o sol se põe,
recolhem-se imediatamente em casa.
Na noite de 3 de janeiro passado, Seu Quiqui – uma espécie
de líder comunitário – fugiu da rotina e ficou com uma neta no casebre depois
do anoitecer. A menina de 10 anos, assim como todas as crianças do povoado, o
chamavam de “papai”. Foi justamente o que ela gritou naquela segunda-feira, por
volta das 20 horas, quando um tiro de pistola atravessou uma das brechas do
casebre e atingiu o tórax de Seu Quiqui. Atordoada, a garota não percebeu que,
de sua perna direita, também jorrava sangue.
As balas que atingiram avô e neta partiram da roça. Dois
homens estavam escondidos ali, no meio das árvores, e bateram em retirada logo
após os disparos. A neta arrastou o avô para casa, onde outros nove familiares
viam tevê. Ligaram para o Samu e, pouco mais de duas horas depois, a menina
estava em um hospital de Arari, no interior do Maranhão. Mais grave, o quadro
de Seu Quiqui exigia intervenção cirúrgica. Ele foi transferido para o Hospital
Municipal Dr. Clementino Moura, em São Luís, a 154 km de sua casa.
Cedro é um dos diversos vilarejos situados no município de
Arari. Desde 1991, integra a Área de Proteção Ambiental da Baixada Maranhense,
que pertence à Amazônia. Quando tentam listar as belezas do povoado, os cerca
de trezentos moradores mal sabem por onde começar, mas nunca deixam de
mencionar uma particularidade: no inverno, cai tanta chuva que os lagos
transbordam e inundam os caminhos extensos que cortam o lugarejo,
transformando-os em finas artérias de terra. De ambos os lados da área
inundada, os peixes pulam fora da água. Começa, então, a temporada de fartura.
No entanto, faça chuva ou faça sol, predomina ali um clima
de medo. Isso porque as terras historicamente ocupadas pelos quilombolas são
disputadas e invadidas por fazendeiros. Entre janeiro de 2020 e outubro de
2021, quatro líderes dos camponeses foram assassinados em Cedro. Ninguém sofreu
punição. Às 7h30 do último dia 8 de janeiro, o número de vítimas saltou para
cinco. José Francisco Lopes Rodrigues, o Seu Quiqui, morreu no hospital.
“Ocaso de Arari escancara a inoperância do governo maranhense
diante da violência no campo”, diz Marcia Palhano, coordenadora estadual da
Comissão Pastoral da Terra. Segundo um levantamento do grupo, o Maranhão
acumula mais mortes ocasionadas por conflitos fundiários que qualquer outro
estado. Apenas em 2021, nove camponeses foram assassinados por lá. Três eram
quilombolas. Desses, dois moravam no mesmo povoado que Seu Quiqui. “São mortes
presumíveis”, lamenta Palhano. “As autoridades recebem sucessivas denúncias,
mas não fazem nada, e as pessoas continuam morrendo.”
As terras de Arari começaram a ser apropriadas por
pecuaristas em meados da década de 1970. À época, a região ainda não havia sido
reconhecida como uma Área de Proteção Ambiental, embora já fosse ocupada por
quilombolas, que nunca conseguiram demarcar oficialmente o território como um
quilombo. Nem esse histórico, nem as autoridades impediram que os fazendeiros
recém-chegados instalassem cercas elétricas no campo e, pouco mais tarde,
levassem búfalos para ocupar as partes inundáveis da Amazônia maranhense.
O que se seguiu foi um pesadelo. Os animais reproduziram-se
rapidamente, gerando uma série de impactos negativos para os moradores, a fauna
e a flora locais. Os rebanhos destruíram roças de subsistência e quebraram
canoas de pescadores, além de esmagar os peixes e poluir as lagoas com fezes.
“Dezenas de famílias quilombolas passaram fome”, lembra o advogado
ambientalista Luís Antônio Pedrosa, que há 28 anos acompanha a situação de
Arari. “Para as crianças chegarem à escola, os pais tinham que levá-las em
lombos de cavalo. Do contrário, os pequenos corriam o risco de ser atacados por
búfalos no meio do caminho.”
Os campos inundáveis de Cedro. — Crédito: Intervenção de
Thallys Braga sobre foto do arquivo pessoal de Luís Antônio Pedrosa.
Em 2017, depois de se reunir com ambientalistas, a
administração do governador Flávio Dino (PSB) criou a Operação Baixada Livre
para impedir a instalação de novas cercas ilegais e suprimir as já existentes
nos campos da Baixada Maranhense. O plano mencionava as consequências da
ocupação irregular e reiterava a necessidade de responsabilizar os invasores
por infrações à legislação ambiental. Naquele mesmo ano, agentes do governo
foram aos povoados e retiraram algumas cercas. Pouco tempo depois,
desapareceram, sem deixar qualquer sinal de que voltariam.
Em 2018, porém, houve uma reviravolta. É comum que os
camponeses de Arari circulem pelo Maranhão para vender a farinha de mandioca
que produzem nas roças. Em viagens a Anajatuba, município vizinho, eles ouviram
falar do movimento social Fóruns e Redes de Cidadania, que promove a retirada
de cercas ilegais na região. Uma fagulha de destemor se alastrou por Cedro e
outros vilarejos. Em poucos meses, os quilombolas se articularam com líderes do
movimento social e destruíram parte dos cercados, o que forçou os fazendeiros a
levar embora dezenas de búfalos.
“A região nunca mais foi a mesma”, afirma Pedrosa. “Os
camponeses recuperaram um pouco da qualidade de vida que tinham perdido havia
anos e, por isso, não pretendem recuar. Os fazendeiros ficaram enfurecidos.”
Dali em diante, começaram a pipocar denúncias de invasões aos povoados e
histórias de quilombolas assassinados.
Todos os dias, religiosamente às 14 ou 18 horas, um carro da
Polícia Civil transita por Cedro. Com o veículo em movimento, os policiais
correm os olhos pelo lugarejo e seguem a viagem. A ronda diária é o único
contato usual que os quilombolas têm com as autoridades de segurança. Desde o
início da pandemia, em março de 2020, até o segundo semestre de 2021, Arari
ficou sem delegado e investigadores. Apenas um escrivão continuou na delegacia.
Os demais agentes só retornaram depois que a Promotoria do município acionou a
Justiça. Na noite do ataque contra Seu Quiqui, dois policiais compareceram ao
quilombo, mas se recusaram a entrar na mata para procurar os atiradores.
Disseram se sentir inseguros.
Aos advogados e militantes que acompanham a situação de
Cedro, a polícia explica que as mortes de camponeses locais ainda não foram
investigadas por causa do tempo que a cidade permaneceu sem delegado. Ao longo
de 2021, dois vizinhos de Seu Quiqui, os agricultores Antônio Gonçalo Diniz, de
70 anos, e João de Deus Moreira Rodrigues, de 51, também foram assassinados. Em
dezembro, três homens armados invadiram a casa do irmão de um dos mortos. O
lavrador conseguiu se esconder e sobreviveu. Todas as cinco vítimas fizeram
parte do levante para retirar as cercas dos fazendeiros no povoado.
A Polícia Civil do Maranhão informa que já instaurou
inquéritos para apurar os casos de Seu Quiqui, Diniz e Moreira Rodrigues.
Também diz que, por ora, as investigações apontam que pelo menos um dos
assassinatos não está relacionado a questões fundiárias. Seria justamente o de
Seu Quiqui. Uma desavença entre ele e o autor do crime teria levado ao
homicídio, mas a família da vítima não avaliza essa versão.
Em visita ao Brasil no fim do ano passado, um representante
da Organização das Nações Unidas, Jan Jarab, esteve com moradores de Cedro e
soube das sucessivas ameaças à vida dos quilombolas. Semanas depois, no dia 24
de janeiro, a ONU divulgou um comunicado em que condena os assassinatos de
ambientalistas no Brasil e pede urgência na investigação dos crimes. Como
exemplos, citou os casos de Seu Quiqui e de uma família morta em São Félix do
Xingu, no Pará, em 9 de janeiro. Os corpos de pai, mãe e filha foram achados
pelo primogênito do casal nos arredores de onde viviam. As três vítimas tocavam
um projeto de criação e soltura de quelônios no Rio Xingu. Em nota, a Polícia
Civil do Pará afirmou que está realizando todos os procedimentos cabíveis para
a elucidação do crime e que o inquérito sobre os assassinatos será concluído
“dentro do prazo necessário”. A corporação, no entanto, não especificou tal
prazo.
Moradores de Cedro reunidos com o representante da Onu no quintal de Seu Quiqui, em novembro de 2021. Ao fundo, o casebre de madeira em que o quilombola foi assassinado dois meses depois. — Crédito: Intervenção de Thallys Braga sobre foto do arquivo pessoal de Luís Antônio Pedrosa.
APromotoria de Arari recebeu, em agosto de 2019, uma
representação criminal com os nomes de mais de cinquenta pecuaristas que ocupam
irregularmente a Área de Preservação Ambiental da Baixada Maranhense. O
documento solicitava a abertura de um inquérito sobre as possíveis violações à
lei. “Foi mais uma das nossas tentativas de chamar atenção para o caos que se
instaurou em Cedro, mas nada aconteceu”, diz Iriomar Teixeira, signatário do
documento e assessor jurídico do movimento Fóruns e Redes de Cidadania. O
advogado acredita que as denúncias não surtem efeito porque os fazendeiros têm
conexões com funcionários do Judiciário maranhense. “Há um jogo político que
impede o Estado de cumprir o seu dever.”
Relatos como o de Teixeira coincidem com os de Luís Antônio
Pedrosa e moradores de Cedro que falaram à piauí sob a condição de anonimato.
Eles dizem que as terras foram indevidamente concedidas aos fazendeiros por um
subprocurador e uma desembargadora do Maranhão. “Quando a Operação Baixada
Livre começou a se aproximar dessa gente poderosa, o governo estadual
imediatamente suspendeu as inspeções e retiradas de cercas”, diz Teixeira.
A Secretaria de Direitos Humanos e Participação Popular
rechaça a declaração do advogado e explica que ações judiciais, e não o
governo, interromperam a operação. Por sua vez, a pasta de Meio Ambiente e
Recursos Naturais enfatiza que, quando recebe denúncias de ilícitos em regiões
de proteção ambiental, logo destina equipes para realizar a fiscalização.
A Secretaria de Segurança Pública não explicitou quais
medidas tomará com o intuito de proteger os familiares das vítimas e os
moradores de Cedro que se sentem em perigo. O governador Flávio Dino nunca se
manifestou sobre os assassinatos dos quilombolas da região. A piauí perguntou
se ele gostaria de deixar um recado aos parentes dos mortos, mas não obteve
nenhuma resposta. A Associação dos Criadores do Estado do Maranhão tampouco se
pronunciou a respeito dos homicídios.
No dia 7 de janeiro, pela primeira vez depois do atentado,
Seu Quiqui conseguiu falar com a família por videochamada. Ainda se encontrava
no hospital e demonstrou esperança. Disse que melhoraria em breve e voltaria
para casa. Também quis saber como estavam os cinco filhos biológicos e os sete
de criação, os oito netos, os dois bisnetos e os vinte afilhados. “Cadê a minha
guerreira? Você continua corajosa?”, perguntou à neta que o acompanhava no dia
do crime. Mas a menina não estava por perto durante a ligação. Depois do
ataque, ela não teve coragem de retornar à casa em que cresceu. Embora se sinta
bem fisicamente, segue abalada e com medo. Na derradeira conversa com o avô, no
dia 3 de janeiro, ele estava prestes a entrar na ambulância e partir para o
hospital de São Luís.
Poucas horas após a videochamada, já no dia 8, o quilombola
morreu. A causa oficial da morte foi insuficiência respiratória.
https://piaui.folha.uol.com.br/um-quilombo-maranhense-ao-deus-dara/
Jovem é morto a tiros e encontrado no quintal de uma casa
em Nanuque
De acordo com a perícia, a vítima foi atingida por disparos
nas costas, coxa, joelho e tórax. Ninguém foi preso.
Por g1 Vales de Minas Gerais — Nanuque
11/02/2022 14h33
Atualizado há 3 dias
Um jovem, de 24 anos, foi morto a tiros na madrugada desta
sexta-feira (11), em Nanuque.
De acordo com o boletim de ocorrências, a Polícia Militar
foi acionada após ter ocorrido vários disparos de arma de fogo no bairro Vila
Nova. Durante patrulhamento, os militares viram uma casa com o portão e a
janela abertos.
Ao entrarem no imóvel, eles encontraram marcas de tiro na
parede do quarto. No local, havia um homem, de 42 anos, que informou aos
policiais que Samuel Gomes Dias estava na casa dele há três dias.
Quando os dois estavam dormindo, ele ouviu os suspeitos
pularem o muro e arrombarem a porta da sala. O homem ainda disse que os
suspeitos se identificaram como policiais e começaram a atirar na casa.
Segundo a PM, o homem informou que escondeu atrás de um
guarda-roupa assim que percebeu a presença dos autores. No imóvel, os militares
apreenderam cinco projéteis, 12 cápsulas de calibre 9 mm, duas de calibre .45 e
sete de calibre 380. A vítima não estava no local.
Cerca de três horas depois, um homem ligou para a polícia,
informando que havia um corpo caído nos fundos da casa. Ele disse que percebeu
que as suas galinhas estavam agitadas e foi ver o que era.
Quando os militares chegaram no local, identificaram o corpo
como sendo de Samuel. De acordo com a perícia, a vítima foi atingida por
disparos nas costas, coxa, joelho e tórax. Na casa, foram recolhidos três
projéteis e duas cápsulas calibre 9 mm.
Aos policiais, testemunhas disseram que Samuel teria
agredido um parente ou o filho de um homem conhecido no meio policial. Até a
publicação desta reportagem, ninguém havia sido preso.
Condenado por roubo, estupro,porte ilegal de arma e lesão corporal
,é preso em Araçuai.
10/02/2022 às 19h22min - Atualizada em 10/02/2022 às 19h22min
Ele estava com mandado de prisão em aberto, desde dezembro do ano passado.
Nesta quinta-feira (10), durante patrulhamento pela rodovia
BR 367, na altura do km 287, próximo à rodoviária de Araçuaí, no Vale do
Jequitinhonha (MG), uma equipe da Patrulha Militar Rodoviária reconheceu
um indivíduo com várias passagens pelo meio policial , por
envolvimento em práticas de crime.
Os policiais resolveram fazer uma abordagem no suspeito.
Após consultar o sistema informatizado ,
descobriram que havia um mandado de prisão contra ele, desde
dezembro do ano passado.
De acordo com a PM, o
mandado foi expedido pelo juiz da
Comarca de Araçuai, e é decorrente de
condenação por crimes de roubo, porte
ilegal de arma de fogo, estupro e lesão corporal. O homem recebeu voz de prisão e, em seguida foi apresentado à autoridade policial após
os procedimentos de praxe. Após passar pela delegacia de policia civil,
ele foi encaminhado ao presídio local. A identidade do homem não foi divulgada.
Gazeta de Araçuai
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