Mostrando postagens com marcador Movimento antivacina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Movimento antivacina. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Djokovic exclusivo para BBC: 'Não sou antivacina, mas abrirei mão de torneios se for obrigado a me vacinar'

Amol Rajan

  • Editor da BBC News
Novak Djokovic

CRÉDITO,PA MEDIA

Legenda da foto,

Djokovic disse estar disposto a abrir mão de torneios de tênis para evitar a vacina

Novak Djokovic disse que prefere perder futuros torneios de tênis do que ser forçado a receber uma vacina contra a covid.

Em entrevista exclusiva para a BBC, ele disse que não está ligado ao movimento antivacina, mas que apoia o direito de escolha de um indivíduo.

Perguntado se aceitaria ficar de fora de competições como Wimbledon e o Aberto da França por causa de sua posição sobre a vacina, Djokovic respondeu: "Sim, esse é o preço que estou disposto a pagar."

O tenista que já venceu 20 torneios Grand Slams em sua carreira foi deportado da Austrália no mês passado, depois que o governo cancelou seu visto em uma disputa sobre seu status de vacinação.

    Djokovic, que é o tenista número um do mundo, alegou que havia obtido uma isenção médica para entrar no país para jogar o Aberto da Austrália, pois tinha se recuperado recentemente da covid-19.

    Fim do Talvez também te interesse

    No entanto, o ministro da imigração do país, Alex Hawke, cancelou pessoalmente o visto de Djokovic, alegando que sua presença poderia incitar "agitação civil" e incentivar o movimento antivacina.

    "Eu nunca fui contra a vacinação", afirmou ele à BBC, dizendo que tomou vacinas quando criança, "mas sempre apoiei a liberdade de escolher o que você coloca em seu corpo."

    Na primeira entrevista concedida desde que foi detido em Melbourne em janeiro, Djokovic falou à BBC sobre especulações sobre seu caso positivo de covid em dezembro e discutiu sua própria atitude em relação à vacina.

    Novak Djokovic

    CRÉDITO,EPA

    Legenda da foto,

    Djokovic foi forçado a deixar a Austrália em janeiro depois que o ministro da Imigração pessoalmente cancelou seu visto

    Djokovic disse esperar que os critérios de vacinação em torneios de tênis mudem, acrescentando que espera "poder jogar por muitos mais anos".

    Mas ele também confirmou que estava disposto a abrir mão da chance de se tornar estatisticamente o maior jogador de tênis masculino de todos os tempos porque ele diz ter muita convicção sobre suas posições. O rival de Djokovic, Rafael Nadal, conquistou 21 títulos de Grand Slam — mais do que qualquer outro tenista masculino na história.

    Questionado sobre o motivo, ele respondeu: "Porque os princípios de tomada de decisão sobre meu corpo são mais importantes do que qualquer título ou qualquer outra coisa. Estou tentando estar em sintonia com meu corpo o máximo que posso".

    Djokovic disse que "sempre foi um grande aluno de bem-estar, saúde e nutrição", e que sua decisão foi influenciada pelo impacto positivo que mudanças em sua dieta e em seus padrões de sono tiveram em suas habilidades esportivas.

    Ele disse que estava "mantendo a mente aberta" sobre a possibilidade de ser vacinado no futuro, "porque estamos todos tentando encontrar coletivamente a melhor solução possível para acabar com a covid".

    "Eu nunca fui contra a vacinação. Eu entendo que, globalmente, todos estão tentando fazer um grande esforço para lidar com esse vírus e chegar, espero, a um fim em breve para esse vírus".

    Criado em meio a duas guerras na ex-Iugoslávia por pais que venderam o ouro da família e pegaram empréstimos com agiotas para financiar suas ambições, Djokovic é fluente em seis idiomas e é possivelmente o maior jogador de tênis da história; e também um libertário profundamente comprometido, que acredita fortemente na autonomia individual.

    Ele claramente pensou bastante sobre o conflito entre a autonomia individual e o bem coletivo — e ele defende que, como um atleta de elite, seu corpo é assunto seu. Ele diz que tem uma mente aberta, mas do jeito que as coisas estão, ele afirma que não vai se vacinar.

    line

    O que mais ele quer saber?

    Análise de Fergus Walsh, Editor de Medicina da BBC News

    Mais de 10 bilhões de doses de vacinas contra a covid foram administradas no mundo, e cerca de seis em cada 10 pessoas no planeta receberam pelo menos uma dose. Portanto, há uma riqueza de informações sobre as vacinas. Como todos os medicamentos, as vacinas contra a covid têm potenciais efeitos colaterais, mas seu perfil de segurança é excelente. Elas salvaram inúmeras vidas, preveniram doenças graves e também podem proteger contra a covid longa.

    Essas vacinas foram desenvolvidas em tempo recorde, mas grande parte desse processo geralmente envolve atrasos no financiamento. Os cientistas envolvidos nos testes e os agentes reguladores que as aprovaram dizem que não houve riscos de segurança com esses atrasos.

    Alguns efeitos colaterais raros só apareceram quando as vacinas começaram a ser distribuídas entre milhões de pessoas, e é por isso que os reguladores continuam monitorando a segurança semana a semana.

    É difícil entender o que mais Novak Djokovic precisa ou quer saber. Ele diz que não tem informações suficientes sobre "a vacina" como se houvesse apenas uma delas. Existem muitas. Como atleta de elite, ele tem baixo risco de contrair covid. Mas não zero. Afinal de contas, ele contraiu a doença duas vezes.

    line

    Na entrevista para a BBC, Djokovic também abordou especulações sobre os eventos que antecederam o Aberto da Austrália em janeiro.

    Alguns sugeriram que era conveniente que o caso positivo de covid de Djokovic em meados de dezembro tivesse ocorrido bem a tempo de ele receber uma isenção médica para participar do torneio.

    "Eu entendo que há muitas críticas e entendo que as pessoas apresentam teorias diferentes sobre a sorte que tive ou o quão conveniente é", disse.

    "Mas ninguém tem a sorte e a conveniência de pegar covid. Milhões de pessoas têm covid e ainda estão lutando contra a doença em todo o mundo. Então eu levo isso muito a sério, eu realmente não gosto que alguém pense que eu manipulei algo ou distorci em meu próprio favor para obter um teste PCR positivo e conseguir ir para a Austrália."

    Perguntado se ele estava ciente de qualquer tentativa de adulterar qualquer um dos testes que ele havia feito para covid — no início deste mês, uma reportagem da BBC havia lançado dúvidas sobre o caso — ele disse categoricamente que não.

    Ele também falou sobre o tempo que passou detido em Melbourne no mês passado.

    "Fiquei muito triste e desapontado com a forma como tudo terminou para mim na Austrália", disse ele. "Não foi fácil."

    Seu pedido de isenção médica foi feito anonimamente e havia sido aceito por dois painéis australianos independentes. No entanto, em uma declaração de viagem separada havia um erro.

    "O erro de declaração de visto não foi feito deliberadamente", disse Djokovic. "Ele foi aceito e confirmado pela Justiça Federal e pelo próprio ministro no Ministério da Imigração da Austrália."

    "Então, na verdade, o que as pessoas provavelmente não sabem é que eu não fui deportado da Austrália porque não fui vacinado, ou quebrei alguma regra ou que cometi um erro na minha declaração de visto. Tudo isso foi aprovado e validado pelo Tribunal Federal da Austrália e pelo Ministro da Imigração."

    "A razão pela qual fui deportado da Austrália foi porque o Ministro da Imigração usou seu poder para cancelar meu visto com base em sua percepção de que eu poderia criar algum sentimento antivacinas no país ou na cidade, do qual discordo completamente."

    * Steven McIntosh contribuiu.

    https://www.bbc.com/portuguese/internacional-60386729

                                                          



    Jovem é morto a tiros em Setubinha. PM acredita em crime passional

    Por Redação -17 de fevereiro de 2022

    Compartilhar no Facebook Twittar no Twitter 

    Um jovem, de 19 anos, foi executado a tiros, na última terça-feira (15), enquanto saía de sua residência no bairro Planalto, em Setubinha. O principal suspeito é o ex-namorado de sua companheira.

     

    Segundo informações, a vítima foi surpreendida quando saía de casa recebendo 3 tiros a queima roupa.

    Ao chegar no local a Polícia Militar, se deparou com o corpo da vítima ao lado se sua motocicleta ainda ligada e o portão de sua casa aberto.

     

    O principal suspeito passou a ser o ex-namorado da companheira da vítima, que estaria descontente com o relacionamento entre os dois.

     

    O ex-namorado foi levado a Delegacia de Polícia Civil de Malacacheta, onde prestou depoimento e após apresentar álibis que comprovariam de que ele não estava no local na hora do crime, foi ouvido e liberado.

      

    A Polícia Civil instalou inquérito para investigar o caso.

    https://minashoje.com/2022/02/jovem-e-morto-a-tiros-em-sebubinha-pm-acredita-em-crime-passional/

    quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

    Movimento antivacina usa os mesmos argumentos há 135 anos, aponta cientista

    Panfleto antivacina do século 19

    Paula Larsson, da Universidade de Oxford

    Caricatura retrata um homem da classe trabalhadora sendo vacinado à força por um oficial de saúde, enquanto é detido por um policial.

    Foto: Hathitrust Digital Library

    NOTA DO EDITOR: As opiniões expressas neste artigo são exclusivamente da responsabilidade do autor. A CNN publica aqui um texto do site The Conversation, uma colaboração entre jornalistas e acadêmicos para fornecer análises e comentários de notícias. O conteúdo é produzido exclusivamente pelo site “The Conversation”. 

    Conforme nos aproximamos de uma vacina eficaz para Covid-19, devemos esperar ver um novo impulso de desinformação e resistência barulhenta do movimento antivacina. 

    Ao longo do ano, uma série aparentemente interminável de teorias de conspiração e campanhas de desinformação ganharam impulso online em meio aumento das taxas de infecção de Covid-19 no mundo todo. 

    Olhar para a história desses movimentos pode nos ajudar a entender por que eles podem ser tão eficazes em capturar seguidores. 

    Como historiadora da medicina, ficou claro para mim, ao pesquisar a história das vacinas, que aqueles que promovem o movimento antivacinas usam consistentemente um conjunto padrão de estratégias.

    Embora possa ser difícil ver padrões de argumento no contexto moderno, olhar para trás em um caso histórico de epidemia e desinformação fornece um estudo de caso útil para revelar as estratégias antivacina recorrentes até hoje. 

    Um panfleto popular publicado em 1885 durante a epidemia de varíola em Montreal, no Canadá, é um grande exemplo.

    Mais de um século depois, temos o benefício de viver em um mundo que erradicou a varíola usando uma vacina. Ainda assim, no passado, a vacinação contra a varíola era fortemente contestada, apesar das evidências a favor de sua eficácia.

    Panfleto antivacina do século 19
    Manchete do panfleto do Dr. Ross de 1885 denunciava a vacinação contra a varíola.
    Foto: Hathitrust Digital Library

    Publicado por um nome importante do movimento antivacina, o doutor Alexander M. Ross, este panfleto foi amplamente divulgado durante a epidemia de varíola de 1885 em Montreal, Canadá, quando as autoridades de saúde pública tentavam aumentar a cobertura vacinal. 

    Ross aproveitou a oportunidade de aumentar as medidas de saúde para ganhar autoridade, notoriedade e fama pessoal. Ele se retratou como o herói de sua própria história, o “único médico que ousou duvidar do fetiche” da vacinação.

    Apesar disso, foi descoberto que ele havia sido vacinado recentemente durante a epidemia, fato que foi alegremente divulgado pelos principais jornais da época. 

    Seu panfleto serve como uma ilustração excelente das estratégias usadas pelos movimentos antivacinas, tanto naquela época quanto agora. Esses argumentos não são novos e mudaram pouco com o tempo. Aprender a reconhecer sua embalagem em tempos modernos pode ajudar a combater eficazmente seu poder. 

    Leia também:
    Como as mudanças climáticas afetam as pandemias
    Sangrias e fumaça curativa: o que já foi usado para tentar combater pandemias

    Minimizar a ameaça de uma doença

    Ross e seus colegas antivacinas foram rápidos em minimizar a ameaça da varíola. Apesar das taxas de mortalidade entre 30% e 40% e o seu extremo nível de contágio, era comum os antivacinas afirmarem que a varíola era apenas uma ameaça menor para a população.

    Ross lamentou o “pânico sem sentido” causado por funcionários da saúde e médicos sobre a epidemia, alegando que a varíola não era, de fato, uma epidemia e que a cidade tinha “muito poucos casos”. Os números oficiais da epidemia acabariam subindo para 9.600 casos notificados, com 3.234 mortes, quase 2% da população de Montreal na época.

    Outros 10 mil casos foram registrados na província de Quebec, mas os historiadores acreditam que os números reais eram provavelmente muito maiores. Esses números e a história dessa epidemia foram narrados pelo historiador Michael Bliss em seu relato de não-ficção “Plague: A Story of Smallpox in Montreal” (“Praga: uma história de varíola em Montreal”, sem edição no Brasil). 

    A minimização da ameaça também é uma tática comum nos debates contemporâneos. Muitos que promovem a agenda antivacina afirmam que as vacinas são mais perigosas do que a doença.

    Alegar que a vacina causa doenças, é ineficaz ou ambos

    Panfleto antivacina do século 19
    Trecho descreve toda uma série de supostos efeitos da vacinação contra a varíola.
    Foto: Hathitrust Digital Library

    Embora os argumentos modernos tenham se concentrado na falsa alegação de que as vacinas causam autismo, os argumentos históricos eram muito mais variados em suas alegações de infecções causadas pela vacina contra a varíola. Os antivacinas do passado afirmavam que a vacinação causava um espectro completo de doenças, desde a própria varíola à sífilis, febre tifoide, tuberculose, cólera e “envenenamento do sangue”. 

    Essas alegações nem sempre eram infundadas, mas seus riscos eram consistentemente exagerados. Há registros de casos de transmissão secundária de doenças devido a práticas inadequadas de vacinação.

    Alguns médicos usaram a vacinação braço a braço (o que significa que usavam o mesmo instrumento para vacinar toda uma fila de pessoas) ou vacinas preparadas de origem humana em vez de bovina. A falta de esterilização entre as operações ou o uso de vacina preparada a partir de uma pessoa infectada pode levar a casos raros de transmissão de doenças secundárias.

    A descoberta de tais transmissões (anos antes) desencadeou alguns dos primeiros regulamentos em torno da preparação e administração de vacinas e gerou uma grande preocupação na comunidade médica sobre a segurança das vacinas, uma preocupação que continuou a ser uma herança na produção de vacinas até hoje. 

    Leia também:
    O que a pandemia de gripe espanhola de 1918 pode nos ensinar sobre a Covid-19
    'Resultado da politização', diz pesquisadora sobre rejeição à vacina chinesa

    Declarar que a vacinação faz parte de uma conspiração maior

    O panfleto de Ross foi inflexível sobre o papel da imprensa e da classe médica em alimentar o medo de infecções como parte de uma campanha “maluca” para ganhar dinheiro. Assim como hoje, as epidemias criaram oportunidades de emprego e pesquisa na área médica. 

    No entanto, esse trabalho foi pintado como uma exploração antiética dos pobres, valendo “um milhão de libras esterlinas” para a profissão, em vez de um esforço no combate ao sofrimento e à morte de milhares. 

    Além disso, as medidas de saúde pública foram descritas como um atentado aos direitos pessoais e um abuso do poder governamental. “Esqueça a tirania russa”, declarou Ross, pois não havia “nada tão grande” quanto a tirania dos funcionários de saúde da cidade.

    Seus argumentos ainda ecoam mais de um século depois na atual pandemia, pois vemos um apoio contínuo por trás da crença em uma conspiração para limitar as liberdades (entre outras, mais extremas, teorias de conspiração). 

    Use autoridades alternativas que legitimam seu argumento

    Panfleto antivacina do século 19
    O Panfleto Ross inclui uma longa lista de depoimentos contra a vacinação dos “médicos mais eminentes da Europa”.
    Foto: Hathitrust Digital Library

    Por último, mas não menos importante, há um apelo às autoridades que ajudem a legitimar o argumento antivacinas. O movimento antivacina moderno tem uma abundância de argumentos, liderados por Andrew Wakefield, o agora desacreditado ex-médico que originalmente publicou o estudo fraudulento ligando a vacina tríplice viral ou MMR (sarampo, caxumba, rubéola) ao autismo.

    O movimento antivacina tem uma longa tradição de promover as palavras de "especialistas" que apoiam sua narrativa. No século 19, os debates sobre vacinação muitas vezes traziam um pequeno círculo semelhante de médicos que falava contra a vacinação, chamando-a de uma prática “suja” e “má”.

    Embora seus argumentos tenham sido refutados por muitos na comunidade médica, eles ganharam um manto duradouro de prestígio entre os antivacinas como as vozes autorizadas que ofereciam a “prova” necessária. 

    Esta não é uma lista exaustiva de estratégias antivacinas, sejam históricas ou contemporâneas. Sempre houve indivíduos que capitalizam em crises médicas para promover sua própria agenda e, na era moderna da mídia digital, estratégias de desinformação evoluíram e se expandiram. Assim como Ross, os líderes desses movimentos ganham poder social pintando-se como cruzados solitários.

    Conforme nos aproximamos para uma distribuição mundial da vacina contra a Covid-19, podemos esperar ver cada vez mais esses cruzados publicando argumentos contra a vacinação. Quebrar padrões de argumentos vistos repetidamente no passado pode fornecer uma lição útil para combatê-los no futuro. 

    Paula Larsson é doutoranda no Centro de História da Ciência, Medicina e Tecnologia da Universidade de Oxford. 

    Republicado sob uma licença Creative Commons do The Conversation

    (Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês). 

    quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

    Movimento antivacina avança na web: por que ele é ameaça à saúde pública

    iStock

    Carlos Madeiro

    Colaboração para VivaBem, em Maceió


    Ao longo dos últimos anos, o Brasil percebeu uma queda de cobertura vacinal do calendário básico de imunização. No ano passado, nenhuma das vacinas básicas teve meta alcançada pela primeira vez. Especialistas apontam que há vários motivos para isso. Um deles é a disseminação de informações falsas pelo movimento antivacina —e que vem ganhando força no país.

    Uma prova disso é que 75% das pessoas afirmaram na última pesquisa Datafolha, de outubro, que queriam se vacinar contra a covid-19. Ou seja, um em cada quatro brasileiros não sabe se vai ou não quer tomar a imunização. Em agosto, o percentual que apontou que queria tomar vacina era de 89%.

    Por meio de canais na internet, vídeos usam argumentos que colocam dúvida desde a segurança das vacinas, até questionamentos sobre outros "métodos naturais" que evitariam doenças.

    Uma pesquisa divulgada na segunda-feira (26) mostra que canais no YouTube ajudam a veicular essas informações falsas. O estudo foi feito por pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e da Universidade da Califórnia Berkeley, nos Estados Unidos, publicado na revista Frontiers in Communication.

    No trabalho, eles localizaram 158 vídeos sobre vacinas com mais de 10 mil visualizações, interações e conexão com outros vídeos da rede. A pesquisa foi feita entre fevereiro e março, ou seja, antes das discussões em torno da vacina da covid-19.

    Oito dos 20 canais que disseminam essas informações falsas têm o selo de conta verificada pelo YouTube e pertencem a companhias ou a promotores de serviços de saúde alternativa.

    No material veiculado, três argumentos se sobressaem: que as vacinas contêm ingredientes perigosos (presente em 53% da amostra), de defesa da liberdade de escolha (48%), de promoção de serviços de saúde alternativa (em 42%).

    Influência negativa

    Fake news, notícias falsas, combate a fake news - tommy/Getty Images - tommy/Getty Images
    Imagem: tommy/Getty Images

    Segundo Dayane Machado, doutoranda no Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp e uma das autoras do estudo, não existem pesquisas específicas que relacionem a causalidade entre a circulação de desinformação e a queda na cobertura vacinal no país.

    "O que temos são pesquisas indicando que a exposição excessiva a desinformação e a teorias da conspiração variadas podem influenciar na tomada de decisão das pessoas, inclusive sobre se vacinar ou adotar um calendário vacinal alternativo", explica.

    A doutoranda explica que é preciso diferenciar o movimento antivacinação e a hesitação vacinal. "Imagine que existe uma régua longa. Numa ponta, há aquelas pessoas que defendem abertamente as vacinas e que não têm problema com elas. Na outra ponta é que a gente posiciona os movimentos antivacinação. Entre essas duas pontas ficam várias posições que a gente chama de hesitação vacinal. Pessoas hesitantes a vacinas podem ser aquelas que recusam algumas vacinas, mas que tomam outras; pessoas que adiam o calendário vacinal; e até pessoas que obedecem ao calendário, mas que não se sentem seguras", explica.

    Machado alega ainda que só é considerado movimento antivacinação quando uma pessoa cria e espalha desinformações sobre vacinas com alguma motivação.

    Dessa forma, antivacinação é quem não só busca estratégias para fazer a desinformação ir mais longe, como quem fabrica desinformação como um método para deixar as pessoas desconfiadas ou com medo das vacinas. Principalmente no movimento americano, nós temos grandes nomes que vivem desse 'ativismo'. Ganham cachê para dar palestra, fazem eventos, alimentam 'fã-clubes', vendem livros, cursos...

    Risco coletivo

    Mas deixar de se vacinar ou de vacinar seus filhos não tem efeito solitário como muita gente pensa. "Vacina não é uma decisão individual que você pode tomar e que não vai ter consequências para a sociedade. Vacina é um ato de saúde coletiva", explica Natália Pasternak, doutora em microbiologia e presidente do Instituto Questão de Ciência.

    "Quando você deixa de se vacinar, deixa de gerar imunidade de rebanho, que é o que protege as pessoas vulneráveis. Quando você tem uma boa parte da população vacinada, a doença para de circular, e daí aquelas pessoas que por algum motivo não podem se vacinar —ou porque são imunocomprometidas ou porque são bebês muito pequenos— ficam protegidas. É assim que a doença não tem como chegar nas pessoas vulneráveis", completa.

    Para Pasternak, há no Brasil um crescimento preocupante desse desse sentimento antivacina. "Ele vem de um movimento que é muito influenciado pelo movimento natural, de curas naturais, de uma vida livre de química —como se isso fosse possível. É um apelo de que tudo que é natural é melhor, e como vacinas não são naturais, são ruins. Isso é misturado com um outro apelo desse movimento de que, se você tiver uma vida saudável, uma alimentação saudável, você não precisa de vacinas, o seu sistema imune dá conta", explica.

    Para ela, a situação se tornou ainda mais grave. "Durante a pandemia isso piora muito quando a gente tem essa desinformação feita diretamente pelo presidente da República", completa.

    Doenças de volta

    sarampo - iStock - iStock
    Pessoa com sarampo
    Imagem: iStock

    Guido Levi, diretor da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), afirma que debater a importância e segurança das vacinas é algo completamente fora de propósito nos dias atuais.

    "Elas são nossa maior estratégia de saúde pública. As vacinas aumentaram em 30 anos a expectativa de vida da população nos últimos dois séculos", diz, citando erradicação de doenças como a varíola e poliomielite.

    Entretanto, ele diz que profissionais da área têm notado um "crescimento muito grande" na desinformação e alerta que isso já tem reflexos percebidos na sociedade, como foi a volta do sarampo.

    "Já foi feita análise em vários países: se você entrar na internet e buscar vai ter muito mais site contra que favoráveis com informações técnicas, científicas adequadas", alega, defendendo uma mobilização nacional.

    "Por isso é muito importante que nós, profissionais, façamos um trabalho extenuante, 24 horas por dia, dando informações com dados científicos claros e fontes seguras sobre eficácia, importância e segurança das vacinas. A maior parte dessas fake news são muito facilmente refutáveis com dados científicos", completa.

    Ele também atribui a desinformação e a consequente queda da cobertura vacinal ao próprio sucesso das imunizações. "Um dos fatores mais importantes foi o desaparecimento das doenças, que faz pessoas não darem a devida importância para a eficácia das vacinas. Você pega médicos mais jovens, eles nunca viram um caso de pólio, de sarampo congênito. No passado víamos essas doenças. Na Cruz Vermelha em São Paulo, as enfermarias eram lotadas de sarampo; todo mundo conhecia alguma pessoa com pólio", diz.

    Levi também comenta a pesquisa do Datafolha em capitais que mostrou que entre 15% e 20% das pessoas, de acordo com a cidade, não pretendem se vacinar contra a covid-19. Se isso se confirmar, diz o diretor de SBIm, será um problema sério para o controle da epidemia.

    "Para covid-19 precisamos de uma vacinação em níveis muito elevados para conseguir a imunidade, senão não vamos conseguir nos livrar", alerta, mas fazendo uma aposta otimista. "Opinião minha: quando a vacina estiver disponível, não vai ter 20% que não tomem. Com certeza vai haver uma mudança nesse aspecto."