sábado, 1 de agosto de 2026

Por que o Pix brasileiro incomoda tanto outros países?

 A tecnologia que revolucionou os pagamentos no Brasil virou alvo de tensão internacional; saiba o que torna o sistema tão inovador e competitivo

Yaya Souza
Repórter
Apaixonada por viagens, Yaya comanda o perfil do Instagram @aquipertin junto com sua família e traz para o Estado de Minas conteúdos diários com dicas sobre turismo dentro e fora de Minas Gerais. Fale conosco pelo aquipertinmg@gmail.com
16/07/2026


Lula e Trump representam a tensão comercial entre Brasil e EUA devido à sobretaxa e ao sistema Pixcrédito: EVARISTO SÁ/AFP JIM WATSON/AFP

O governo dos Estados Unidos anunciou nesta quarta-feira (15) uma nova sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, e um dos motivos citados para a medida causou surpresa: o Pix. A menção direta ao sistema de pagamentos instantâneos do Brasil como um fator de tensão comercial acendeu um intenso debate sobre a competitividade da tecnologia e seu impacto nas relações internacionais.

A decisão norte-americana, que afeta diretamente exportadores brasileiros, embora mais de 2.100 itens tenham sido isentos da medida, incluindo carne, café, laranja e componentes aeronáuticos, ocorre em um momento de ampla discussão sobre a soberania de sistemas financeiros digitais. A repercussão evidencia como uma inovação nacional pode se transformar em um ponto de atrito geopolítico.

Por que o Pix brasileiro é considerado uma ameaça?

A investigação dos EUA que culminou na sobretaxa foi ampla, incluindo temas como etanol, tarifas preferenciais, propriedade intelectual e comércio digital. No entanto, o Pix se tornou o ponto mais controverso, visto por Washington como uma barreira competitiva. A percepção de que a tecnologia brasileira representa uma ameaça está ligada a três fatores principais:

  • Independência de sistemas internacionais: o Pix funciona à margem das grandes redes de cartões de crédito e débito, como Visa e Mastercard, que são majoritariamente empresas dos EUA. Isso significa que as taxas de transação, que antes eram destinadas a essas companhias, permanecem no Brasil, fortalecendo o sistema financeiro local.

  • Modelo de tecnologia pública: o sucesso de um sistema de pagamentos criado e operado por um banco central estatal serve de modelo para outras nações. Esse movimento representa uma concorrência direta ao modelo de negócios de big techs e fintechs privadas que buscam dominar o mercado global de pagamentos.

  • Soberania de dados: as informações das transações realizadas via Pix são controladas pelo Banco Central, garantindo a soberania de dados do Brasil. Em um cenário de crescente disputa por informações digitais, ter um sistema financeiro fechado é visto como uma barreira para empresas estrangeiras.

Qual o impacto da sobretaxa dos EUA no Brasil?

A sobretaxa de 25%, que entra em vigor em 22 de julho de 2026, é a consequência mais direta dessa tensão. A decisão foi tomada após o fracasso de pelo menos cinco rodadas de negociações bilaterais de alto nível realizadas desde 7 de maio de 2026, com a última reunião ocorrendo em 14 de julho, um dia antes do anúncio. A medida foi baseada em uma investigação sob a Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, iniciada em julho de 2025, que argumenta que o Pix cria um ecossistema fechado que dificulta a competição de empresas estrangeiras.

Apesar do alarme inicial, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços calcula que apenas 21% das exportações brasileiras para os EUA serão de fato afetadas, devido à extensa lista de isenções. Em resposta, o governo brasileiro já anunciou que aplicará contramedidas com base na Lei da Reciprocidade Econômica e que levará o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC).

Uma ferramenta de IA foi usada para auxiliar na produção desta reportagem, sob supervisão editorial humana.

Pix já pode ser usado para pagamentos em oito países

 Modalidade permite compras por QR Code em estabelecimentos na América do Sul, Estados Unidos e Europa, com conversão automática para reais

01/08/2026 


Apesar do avanço para outros países, o BC esclarece que ainda não há um Pix internacional oficialcrédito: Bruno Peres/Agência Brasil


Brasileiros já podem usar Pix para pagar compras em oito países sem recorrer ao cartão de crédito ou dinheiro em espécie. A modalidade está disponível em alguns estabelecimentos do Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Estados Unidos, Portugal, Espanha e França por meio de parcerias entre bancos, fintechs e empresas de pagamentos.

Na prática, o funcionamento é semelhante ao do Pix no Brasil. O estabelecimento gera um QR Code na maquininha, que é escaneado pelo aplicativo do banco brasileiro. Antes da confirmação, o cliente visualiza o valor final em reais, já com a conversão cambial e as tarifas aplicáveis. Após a autenticação por senha ou biometria, a empresa responsável pela operação liquida o pagamento ao comerciante na moeda local.

Apesar do avanço, o Banco Central esclarece que não existe um Pix internacional oficial. As operações são intermediadas por instituições autorizadas a operar câmbio, que convertem automaticamente o valor da compra para a moeda local no momento da transação.

O pagamento no exterior está disponível apenas em estabelecimentos parceiros integrados às plataformas de conversão cambial, principalmente em destinos turísticos. Nesses locais, o valor da compra é convertido automaticamente para a moeda local no momento da transação. 

Como não se trata de um sistema oficial de pagamentos internacionais operado pelos governos dos países onde o serviço está disponível, sua utilização ainda é restrita às redes privadas que oferecem essa tecnologia. Além disso, as operações estão sujeitas à cobrança de impostos, como o IOF, e à incidência de custos relacionados à conversão da moeda, como o spread cambial.

    Custo 

    O principal diferencial da modalidade é o custo. Enquanto compras internacionais no cartão de crédito estão sujeitas ao IOF de 5,38%, além da cotação do dólar turismo, os pagamentos via Pix utilizam o câmbio comercial, normalmente mais vantajoso, e podem ter tributação menor. O sistema também elimina a necessidade de transportar dinheiro em espécie ou trocar moeda antes da viagem.

    Atualmente, a solução está presente em hotéis, restaurantes, lojas e atrações turísticas de destinos bastante procurados por brasileiros, incluindo cidades como Miami, Orlando, Lisboa, Madri e Paris.

      Acordos internacionais 

      A expansão do serviço ocorre por meio de acordos entre instituições financeiras e empresas de tecnologia. No Chile, a operação é realizada em parceria entre a PagBrasil e a VirtualPOS. Na Argentina, o Banco do Brasil firmou acordo com o Banco Patagonia para disponibilizar o pagamento em milhares de estabelecimentos. 

      No Uruguai, o serviço é oferecido pela Getnet, enquanto, nos Estados Unidos, a integração é feita pela Verifone. A infraestrutura de liquidação internacional também conta com plataformas de câmbio e bancos especializados nas operações entre os países.