Empresário Adair Meira é preso em operação da Polícia Civil de São Paulo
Imagem: Divulgação Polícia Civil
Preso na semana passada em Goiânia pelas polícias civis de São Paulo e Goiás, sob suspeita de atuar em um esquema de lavagem de dinheiro para o PCC, o empresário Adair Meira, 63, preside uma fundação cujos contratos com o governo de Goiás somam atualmente R$ R$ 141.509.831,63. Eles foram assinados entre 2021 e 2025
O que aconteceu
Investigação da Polícia Civil de São Paulo liga Meira a supostos membros do PCC. Conversas de celulares apreendidos indicam que Adair Meira atuava como um dos principais interlocutores de João Gabriel de Mello Yamawaki, preso em 2024 e apontado como operador do banco 4TBank, que pertenceria à facção.
Relatório da polícia aponta que Meira usaria entidades e empresas ligadas a ele para lavar dinheiro para a facção. O documento ao qual o UOL teve acesso mostra supostas negociações entre Meira e João Gabriel para misturar recursos lícitos e ilícitos. A defesa do empresário nega irregularidades e ligação com o PCC. Advogados afirmam que Meira não tem vínculo com organizações criminosas.
Das três instituições citadas na investigação, Meira se mantém na presidência de apenas uma, a Fundação Pró-Cerrado. O foco da entidade é educação, "preservação do Cerrado" e "oferecimento de formação técnico-profissional a jovens em situação de vulnerabilidade". Outras duas empresas mencionadas, Fundação Sagres e Renapsi, foram criadas por Meira mas não são presididas por ele, segundo as assessorias e a própria Receita Federal — as assessorias não disseram quando ele saiu da administração de ambas.
Atas obtidas pelo UOL mostram que Adair seguia vinculado à Renapsi em 2025. Em fevereiro daquele ano, o empresário foi citado como "membro associado" da entidade. Em outra ata, de junho de 2023, ele chegou a assinar o documento com email ligado à Fundação Sagres.
Pró-Cerrado presta serviço à Secretaria de Economia de Goiás. A ONG fornece terceirizados à pasta, incluindo auxiliares administrativos, motoristas e atendimento de call center.
Levantamento do UOL com base em dados dos últimos 25 anos identificou 12 contratos entre a Pró-Cerrado e o Governo de Goiás. Informações disponíveis no Portal da Transparência estadual mostram que o primeiro entrou em vigência em fevereiro de 2010. Os contratos incluem serviços para as secretarias de Economia e de Desenvolvimento Social.
Quatro contratos da Pró-Cerrado com o governo estão vigentes e foram firmados na gestão de Ronaldo Caiado (PSD) (2019-2026). Dois acordos de 2021 e um 2022 tiveram prazo estendido até o segundo semestre deste ano. Outro contrato foi assinado em novembro de 2025, com prazo de um ano. Juntos, somam atualmente R$ 141,5 milhões. Os quatros contratos dizem respeito à prestação de serviços terceirizados de auxiliares, motoristas e operadores de call center.
Outros lados
Defesa de Meira afirma que os contratos com o governo seguiram a lei. Os advogados também contestam as acusações de lavagem de dinheiro. Por meio de nota, a Fundação Pró-Cerrado informou que "não é alvo de qualquer investigação" e acompanha o caso com atenção. Em relação à investigação que menciona Meira, a entidade disse que, "por medida de precaução e governança, ele foi temporariamente afastado de suas funções".
Governo de Goiás informou que abriu verificação sobre contratos. Em nota, o estado afirmou que a prisão de Adair Meira não envolve a gestão estadual nem os contratos firmados. Apesar disso, informou que a Controladoria vai checar os contratos, sem especificar a data de abertura do processo. A medida, diz a nota, foi adotada por "zelo com o interesse público".
Estado também diz que não controla atividades privadas de contratadas. O governo afirma que sua atribuição é contratar conforme a lei e fiscalizar a execução dos serviços, o que, segundo a gestão, vem sendo cumprido. A Polícia de São Paulo afirmou que durante a nova etapa da investigação vai verificar os contratos entre o governo goiano e a empresa de Meira —o objetivo é apurar se há indícios de lavagem de dinheiro.
Ex-governador diz não ter responsabilidade direta e nega irregularidades. Ronaldo Caiado afirma, por meio de nota, que a fiscalização de contratos cabe a órgãos de controle, que o vínculo com a empresa existe desde 2004 e que não houve denúncias durante sua gestão para justificar investigação (leia nota na íntegra aqui).
UOL entrou em contato com estados que, segundo a assessoria de imprensa de Caiado, também teriam contratos com entidades ligadas a Meira. Tocantins, Minas Gerais e Rio Grande do Sul informaram não ter acordos com a Pró-Cerrado. Bahia e Distrito Federal não responderam à reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.
Governador de Goiás entre 2011 e 2018, Marconi Perillo (PSDB) disse que soube da operação que prendeu Meira e conhecia empresas ligadas a ele. Contudo, disse que "jamais ouviu" quaisquer ilações ou rumores a respeito" de eventuais irregularidades e que não pediu abertura de processo de verificação porque "não havia suspeita". O UOL também procurou os ex-governadores Alcides Rodrigues Filho e José Eliton de Figuerêdo Júnior, mas não obteve resposta. O espaço segue aberto para manifestação.
Como funcionaria o esquema
Investigação chegou ao nome de Adair Meira em 2024. Ele foi citado em mensagens de celulares apreendidos durante a operação Decurio e apontado pela Polícia de São Paulo como possível lavador de recursos públicos para a facção criminosa e principal articulador para infiltrar o PCC nas gestões paulistas.
Esquema envolveria emissão de boletos para serem pagos por empresas ligadas a Meira, diz polícia. Segundo a investigação, os boletos seriam pagos, os valores entrariam no caixa da 4TPag (razão social do 4TBank), João Gabriel sacaria os valores e devolveria em espécie para Meira.
Dinheiro seria transportado entre estados, dizem investigadores. A polícia aponta uso de aeronaves fretadas e helicópteros para levar recursos entre São Paulo, Brasília e Palmas. O relatório cita como "indício da consumação desse fato" diálogos que mencionam taxa de operação e fretamentos aéreos, incluindo valores superiores a R$ 18 mil.
Relatório indica que Meira exerceria controle sobre as operações. A polícia afirma que ele tinha "grande poder de mando" sobre as quantias movimentadas. Nas mensagens apreendidas e atribuídas a Meira, ele determinaria o valor a ser transferido.
Neste Momento 3k (3.000). Nada mais. A não ser que eu combine com vc.Trecho de mensagem que Meira teria enviado a João em 22 de fevereiro de 2022, citada pela investigação
Como as empresas seriam usadas
A polícia afirma que a Fundação Pró-Cerrado e outras entidades serviriam para circular valores. Relatório aponta "padrão detectado". Nele, os boletos seriam emitidos pela 4TBank e depois distribuídos pelos CNPJs controlados por Meira. O dinheiro, então, seria sacado por João Gabriel e devolvido a Meira.
Mensagens que constam no relatório da polícia citam Fundação Sagres e Renapsi. A investigação encontrou diálogos com orientações para pagamentos e transferências envolvendo contas dessas empresas. A Sagres presta serviço de apoio à educação, rádio, televisão e serviços digitais, além de treinamento profissional. Já a Renapsi é uma ONG voltada à inclusão de jovens no mercado de trabalho.
Transações não tinham motivação real, diz polícia. O relatório afirma que as operações não estavam ligadas a projetos, prestações de serviço ou parcerias, servindo apenas para "dificultar a rastreabilidade da real origem do dinheiro".
O que dizem as outras entidades
Fundação Sagres disse, por meio de nota, não ser alvo de investigação. A entidade afirma confiar no esclarecimento dos fatos, ter compromisso com transparência e que Adair Meira não integra seu conselho estatutário.
Renapsi diz não ser alvo de investigação e nega vínculo com Meira. A entidade afirma que ele não ocupa cargos de gestão nem tem relação administrativa com a organização. Instituição diz também que parcerias com o poder público seguem critérios de transparência e fiscalização.
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