Dinheiro apreendido pela PF durante a operação
Imagem: Divulgação / Polícia Federal…
Daniela LimaColunista do UOL
02/07/2026 05h30…
A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República afirmaram ao Supremo Tribunal Federal que existem "fundamentadas razões" para acreditar que o líder do PL na Câmara, deputado e pastor Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), usou de uma intrincada rede de empresas de fachada para lavar dinheiro desviado de verbas do Congresso, em operações que envolveriam desde a simulação de aluguel de veículos por meio de firmas com movimentações financeira atípicas, saques milionários de dinheiro em espécie e, por fim, a simulação de compra e venda de um imóvel.
Na última ofensiva para tentar entender o caso, ontem, os investigadores acabaram encontrando maços de notas de R$ 50 e R$ 100 na casa de uma pessoa próxima ao deputado, escondidos com um requinte de ironia: o dinheiro estava guardado em livros falsos de dinheiro, um deles intitulado "O manual do advogado".
Alvo de operação que apurava o desvio de verba para aluguel de carros na Câmara no ano passado, Sóstenes justificou a existência de R$ 468 mil dentro de sacolas em um armário de casa com a venda de um imóvel. Disse ter feito a transação, recebido o valor em dinheiro vivo, guardado em um armário e esquecido em casa.
A PF foi checar a informação. O tal apartamento teria sido vendido para um advogado do deputado. A versão não bateu com os fatos. Segundo reportado ao STF, o escritório de advocacia do responsável pela negociação tem movimentação financeira atípica e, pior, não fez qualquer saque nas datas próximas à alegada negociação que justificasse um montante tão grande de dinheiro em espécie.
PF e PGR ainda registraram nas peças enviadas ao Supremo que a tal venda do apartamento foi formalizada em cartório quase um mês depois da operação que flagrou Sóstenes com o dinheiro, no que é tratado como "uma possível tentativa de fabricar um lastro retroativo para conferir aparência de licitude ao montante localizado". Em português claro: um registro falso para tentar justificar a bufunfa que estava nas mãos do deputado.
O problema é que, para além da versão inverossímil, a verba encontrada com Sóstenes tinha identificadores de origem. Ao analisar de onde vinha o dinheiro, os policiais se depararam com uma intrincada rede de firmas, em tese de construção, localizadas num mesmo endereço, só com uma sala de diferença entre duas delas.
Mais: os sócios das empresas tinham outros negócios, numa aparente rede de firmas usadas para lavar dinheiro. Uma delas não tem funcionários registrados, veículos, nada que indique um funcionamento regular. A outra até tem, mas nada que justifique a intensa movimentação de recursos, com saques que chegam a quase R$ 15 milhões.
Toda essa rede de pessoas próximas ao deputado foi arrastada para dentro da investigação supervisionada pelo ministro Flávio Dino no STF.
"O montante em espécie localizado no guarda-roupa do deputado federal carece de lastro documental idôneo que justifique sua posse e origem lícita. Até o presente estágio, as duas linhas investigativas abertas para elucidar a procedência do numerário [do dinheiro] apresentam lacunas. A ausência de uma comprovação inequívoca do fluxo financeiro que culminou na guarda de tais valores reforça a necessidade de um aprofundamento investigativo para verificar se a guarda desses recursos não constitui, em verdade, o exaurimento de práticas ilícitas ocultas, como o próprio desvio de cotas
parlamentares, objeto alvo das representações policiais anteriores", opinou a PGR.
As duas linhas de investigação citadas são: 1) a alegada venda do imóvel ao advogado cuja movimentação financeira suscitou um aviso do Coaf às autoridades, e 2) o uso da rede de firmas de fachada para simular operações e desviar verbas indenizatórias da Câmara.
Ambas as hipóteses foram, ironicamente, abertas pelo próprio Sóstenes, que guardou o dinheiro vivo com tarjas que levavam à identificação de sua origem em investigação mais detalhada e que também, no afã de se explicar, citou uma operação que ainda não existia formalmente de compra e venda de um imóvel.
"São múltiplos os indícios de que as pessoas jurídicas citadas movimentaram recursos desproporcionalmente elevados em relação à sua estrutura empresarial. Ligados a essas pessoas jurídicas, dois irmãos teriam movimentado, no total, mais de R$ 15 milhões com recurso sistemático a saques em espécie, procedimento típico de tentativa de dissimular a origem e o destino de valores aparentemente ilícitos [lavagem de dinheiro]".
No fim, ao apurar a suspeita de desvio de cota para aluguel de carros na Câmara, a PF promoveu sua própria versão do milagre da multiplicação.
Lançou rede para pescar um peixe, mas pode ter catado um cardume inteiro. Isso porque outros parlamentares usaram as mesmas empresas citadas na suspeita inicial para "alugar veículos". Entre os citados no caso, está Carlos Jordy, também do PL do Rio.

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