Antropólogo Rodrigo Toniol fala à coluna GENTE sobre a crescente presença da religião em instituições superiores
Rodrigo Toniol (UFRJ/Divulgação)
Recentemente, vídeos de um culto na praça da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) dominaram as redes com uma enxurrada de críticas à instituição. Ao invés de festas com “chopadas” (regadas a cerveja e música), muitos estudantes estão preferindo fazer orações em grupos. Enquanto para uns os movimentos ligados à religião em faculdade sejam mal vistos, nem sempre o efeito gerado é negativo. Segundo o antropólogo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Rodrigo Toniol, esse aumento cria uma maior diversidade dentro de salas de aula. “Isso tem implicação no modo de condução e o modo de reação dos alunos a determinados temas. Mas não é só reação negativa, estou falando em experiência de vida e o modo que se pensa o universo religioso. O número de evangélicos nas universidades públicas aumentou muito as experiências compartilhadas por eles na sala de aula também”, afirma em entrevista à coluna GENTE.
Em 1970, apenas seis por cento dos brasileiros se identificavam como evangélicos. O panorama mudou: hoje o grupo é de cerca de trinta e um por cento da população. E não é de hoje que os evangélicos ocupam as universidades públicas – em 1957, foi fundada a Aliança Bíblica Universitária do Brasil, com o intuito de mostrar que as instituições educacionais também são “espaços de devoção”. Entretanto, movimentadas pela própria Igreja e por partidos de direita, discussões de que o espaço universitário era “dominado” pela esquerda sempre foram acaloradas.
O ponto de grande debate sobre essa presença é que, apesar de maior diversidade, o discurso evangélico ainda é ligado a falas preconceituosas. Considerado o último grande bastião” a salvo das rixas alavancadas por pregações neopentecostais, o meio acadêmico se vê cada vez mais “animado” no debate. Se antes os corredores universitários eram tidos como de alto “grau de contaminação político-ideológica” por parte de setores conservadores, agora eles são os novos territórios a serem dominados. O discurso de ódio não é unânime, claro, de parte dos evangélicos. “O jovem evangélico também está se descobrindo, aprendendo quem é ele. Muitos evangélicos que convivo são progressista, fazem parte de coletivos LGBTQIA+ e são feministas cristãs”, diz o antropólogo.
Entretanto, utilizar espaços públicos dentro das universidades para fazer culto precisa ser regularizado. “Uso de conteúdo religioso dentro de instituições públicas é algo muito comum. Como princípio geral não há intolerância religiosa, é como as universidades costumam a se organizar”, ressaltou o antropólogo. Para ele, não há receita de bolo. Dentro do espaço democrático, os evangélicos vão testando suas doutrinas – o que não impede de, eventualmente, saírem para (quem sabe) as noitadas universitárias.
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